Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Citação de Mevitevendo, de Artur da Távola (Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros)

 

 
 
Deus é sempre um pouco mais,. Mesmo no menos. Ele é minha procura, nova, a cada encontro. É meu fluxo de vida e não a minha vida. É minha amargura tanto quanto minha alegria, porque está na dimensão do que não tenho mas sei que existe porque Dele me fala o mistério: o doce mistério, da amarga mas perfumada trajetória, átomo da eternidade, fagulha de esperança, a que chamamos vida e atribuímos tanto, quando apenas é um espasmo da carne em forma de ser e susto. E o que é isso para o Absoluto?

TÁVOLA, Artur da. Muito pessoal. In: TÁVOLA, Artur da. Mevitevendo. 7. ed. Rio de Janeiro: PGL-Comunicação, 1981. p. 23 [22-23].

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Citação de A Gaia Ciência, de Nietzsche

 


 

A meditação perdeu toda a dignidade de sua forma; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflete e não se poderia continuar a suportar um homem sábio ao velho estilo. Pensamos depressa, pensamos pelo caminho, em plena marcha, no meio de negócios de toda espécie, mesmo quando se trate de pensar nas coisas mais sérias; basta-nos apenas um pouco de preparação e até mesmo pouco silêncio: - é  como se nossa cabeça contivesse uma máquina em movimento constante, que continuasse trabalhando mesmo nas condições mais impróprias para o pensamento. Outrora, quando alguém queria pensar - era realmente uma coisa excepcional!; era visto tornar-se mais calmo e preparar sua idéia [sic]: contraía o rosto como se fosse para uma oração e parava de caminhar; alguns ficavam até mesmo imóveis durante horas - apoiados numa só ou nas duas pernas - na rua, quando o pensamento "vinha". Isso era chamado "pensar".  

Nietzsche, Friedrich. A gaia ciência. Tradução de Antonio Carlos Braga. São Paulo: Escala, 2006. p. 44-45.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Citação de Eclesiastes, da Bíblia

 

Eclesiástes 1 


1 Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém.
2 Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.
3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
4 Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre.
5 O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce.
6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro vai para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira, e retoma os seus circuitos.
7 Todos os ribeiros vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios correm, para ali continuam a correr.
8 Todas as coisas estão cheias de cansaço; ninguém o pode exprimir: os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
9 O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol.
10 Há alguma coisa de que se possa dizer: isto é novo? ela já existiu nos séculos que foram antes de nós.
11 Já não há lembrança das gerações passadas; nem das gerações futuras haverá lembrança entre os que virão depois delas.
12 Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém.
13 E apliquei o meu coração a inquirir e a investigar com sabedoria a respeito de tudo quanto se faz debaixo do céu; essa enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens para nela se exercitarem.
14 Atentei para todas as obras que se e fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão.
15 O que é torto não se pode endireitar; o que falta não se pode enumerar.
16 Falei comigo mesmo, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; na verdade, tenho tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento.
17 E apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão.
18 Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.

BÍBLIA, A. T. Eclesiástes. In: A Bíblia Sagrada: Almeida atualizada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Abbotsford, CAN: Zeiset, 2020. E-book. p. 1379-1380. Ec 1: 1-18.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Citação de Reflexões sobre a vaidade dos homens/ Carta sobre a fortuna, de Mathias Aires

 

 
De maneira incisiva, Mathias Aires começa a tecer a [sic] suas reflexões a partir do trecho bíblico extraído do Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas, ou seja, Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Ele vê no centro de suas Reflexões o pensamento do homem não como uma ponta solta da alma humana, mas como objeto que pertence e forma toda idéia do universo. Para o pensador, não há quem esteja imune à vaidade, ele se coloca entre os vaidosos ao ansiar pela publicação de sua própria obra. A vaidade é o fio condutor para que se possa entender todo o comportamento humano. O conceito está ligado diretamente a outros sentimentos, como orgulho, e alcança esferas de pensamento com a compreensão e a fantasia.
Na Carta Sobre [sic] a Fortuna, o autor se vê como um infortunado e responde, em forma de carta, a um desejo do Rei de que ele possua maior fortuna. Entretanto, a resposta incorpora uma longa explanação que confronta merecimento e fortuna. Para, por fim, concluir que ser afortunado na idade em que se encontrava o filósofo, nem seria verdadeira fortuna.

APRESENTAÇÃO. In: AIRES, Mathias. Reflexões sobre a vaidade dos homens/ Carta sobre a fortuna. São Paulo, SP: Escala, 2008. (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal). v. 21. p.12-13.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Citação de Sobre a Brevidade da Vida, de Sêneca


Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai. 4. Desse modo, não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim. Não somos privados, mas pródigos de vida. Como grandes riquezas, quando chegam às mãos de um mau administrador, em um curto espaço de tempo, se dissipam, mas, se modestas e confiadas a um bom guardião, aumentam com o tempo, assim a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir.

SÊNECA, Lúcio Anneo. Sobre a brevidade da vida. Tradução de Lúcia Sá Rabello, Ellen Itanajara Neves Vranas, Gabriel Nocchi Macedo. Porto Alegre: L&PM, 2013. (Coleção L&PM POCKET, v. 548). p. 26.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Citação de Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal


CAPÍTULO I

Seção I

Das Regras Deontológicas

I - A dignidade, o decoro, o zelo, a eficácia e a consciência dos princípios morais são primados maiores que devem nortear o servidor público, seja no exercício do cargo ou função, ou fora dele, já que refletirá o exercício da vocação do próprio poder estatal. Seus atos, comportamentos e atitudes serão direcionados para a preservação da honra e da tradição dos serviços públicos.

II - O servidor público não poderá jamais desprezar o elemento ético de sua conduta. Assim, não terá que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas principalmente entre o honesto e o desonesto, consoante as regras contidas no art. 37, caput, e § 4°, da Constituição Federal.

III - A moralidade da Administração Pública não se limita à distinção entre o bem e o mal, devendo ser acrescida da idéia de que o fim é sempre o bem comum. O equilíbrio entre a legalidade e a finalidade, na conduta do servidor público, é que poderá consolidar a moralidade do ato administrativo.

IV- A remuneração do servidor público é custeada pelos tributos pagos direta ou indiretamente por todos, até por ele próprio, e por isso se exige, como contrapartida, que a moralidade administrativa se integre no Direito, como elemento indissociável de sua aplicação e de sua finalidade, erigindo-se, como conseqüência, em fator de legalidade.

V - O trabalho desenvolvido pelo servidor público perante a comunidade deve ser entendido como acréscimo ao seu próprio bem-estar, já que, como cidadão, integrante da sociedade, o êxito desse trabalho pode ser considerado como seu maior patrimônio.

VI - A função pública deve ser tida como exercício profissional e, portanto, se integra na vida particular de cada servidor público. Assim, os fatos e atos verificados na conduta do dia-a-dia em sua vida privada poderão acrescer ou diminuir o seu bom conceito na vida funcional.

VII - Salvo os casos de segurança nacional, investigações policiais ou interesse superior do Estado e da
Administração Pública, a serem preservados em processo previamente declarado sigiloso, nos termos da lei, a publicidade de qualquer ato administrativo constitui requisito de eficácia e moralidade, ensejando sua omissão comprometimento ético contra o bem comum, imputável a quem a negar.

VIII - Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação.

IX - A cortesia, a boa vontade, o cuidado e o tempo dedicados ao serviço público caracterizam o esforço pela disciplina. Tratar mal uma pessoa que paga seus tributos direta ou indiretamente significa causar-lhe dano moral. Da mesma forma, causar dano a qualquer bem pertencente ao patrimônio público, deteriorando-o, por descuido ou má vontade, não constitui apenas uma ofensa ao equipamento e às instalações ou ao Estado, mas a todos os homens de boa vontade que dedicaram sua inteligência, seu tempo, suas esperanças e seus esforços para construí-los.

X - Deixar o servidor público qualquer pessoa à espera de solução que compete ao setor em que exerça suas funções, permitindo a formação de longas filas, ou qualquer outra espécie de atraso na prestação do serviço, não caracteriza apenas atitude contra a ética ou ato de desumanidade, mas principalmente grave dano moral aos usuários dos serviços públicos.

XI - O servidor deve prestar toda a sua atenção às ordens legais de seus superiores, velando atentamente por seu cumprimento, e, assim, evitando a conduta negligente. Os repetidos erros, o descaso e o acúmulo de desvios tornam-se, às vezes, difíceis de corrigir e caracterizam até mesmo imprudência no desempenho da função pública.

XII - Toda ausência injustificada do servidor de seu local de trabalho é fator de desmoralização do serviço
público, o que quase sempre conduz à desordem nas relações humanas.

XIII - O servidor que trabalha em harmonia com a estrutura organizacional, respeitando seus colegas e cada concidadão, colabora e de todos pode receber colaboração, pois sua atividade pública é a grande oportunidade para o crescimento e o engrandecimento da Nação.


BRASIL. Decreto nº 1.171, de 22 de junho de 1994. Aprova o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1171.htm. Acesso em: 20 ago. 2024.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Citação de Contra os acadêmicos, de Santo Agostinho

 
 
O que nas coisas chamamos de acaso nada mais é que algo cuja razão e causa é secreta; e nada de conveniente ou de inconveniente acontece à parte que não diga respeito e não atinja também ao todo. E a filosofia, à qual estou te convidando, promete demonstrar aos que a amam verdadeiramente a visão das doutrinas mais fecundas, proferidas pelos oráculos, e extremamente distanciadas do intelecto dos profanos.
 
 
AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018. (Vozes de Bolso). p. 14.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Citação de Pólvora, de Herbert Vianna

 


PÓLVORA

As teorias que explicam o universo
Os versos que vasculham o coração
Os garis, estivadores e arquitetos
A fé manipulada dos cristãos

As alegrias, alergias, os afetos
Os fatos, frases, a simulação
O país ajoelhado, a morte, o sexo
A culpa e o olhar de acusação

O que é tudo isso diante da Pólvora?
(Dessa paixão que se renova)

Os dias, datas de aniversário
Os quartos de hotel, o avião
Os livros, discos, dicionários
A madrugada e o olhar sem direção

Os velhos, as crianças e os parques
Os templos, tumbas e memoriais
A nova velha forma do desastre
Bandeiras, panos, lenços, aventais

O que é tudo isso diante da pólvora?
(Dessa paixão que se renova) 


PÓLVORA. Intérprete: Os Paralamas do Sucesso. Compositor: Herbert Vianna. In: BIG Bang. Intérprete: Os Paralamas do Sucesso. [S. l.]: EMI Music Brasil, 1989. 1 CD, faixa 3.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Citação de A sabedoria da filosofia, de Nicola Abbagnano

 

A filosofia é conhecimento teórico puro, por isso tem como principal função traçar uma nítida linha demarcatória entre ideologia e ciência. A ideologia tem caráter prático, procura revestir a realidade com certos valores, transformá-la; mas é falsa a sua pretensão de representar a realidade como tal. A filosofia tem por meta debelar essa pretensão, estabelecendo uma nítida distinção entre aquilo que é ideológico e o que é científico. Mas, para obter esse resultado, deve atuar em um campo onde o científico e o ideológico estão misturados: e este é o campo das ciências atuais, "exploradas" (como dizia Althusser) pelas filosofias religiosas, idealistas e espiritualistas, que não tomam as ciências pelo que são mas usam a sua existência, seus limites e sua dificuldade de crescimento (batizada como "crises") como prova ou garantia de "valores extra-científicos", que mantêm de pé a sociedade de classes e os seus conflitos.

ABBAGNANO, Nicola. A sabedoria da filosofia: problemas da nossa vida. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. [Coleção Tempo e Religião]. p. 143.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Citação de Qual é a tua obra?, de Mario Sergio Cortella



Nenhum e nenhuma de nós é capaz de fazer tudo certo o tempo todo de todos os modos. Por isso, você só conhece alguém quando sabe que ele erra, e quando ele erra e não desiste. E dizem: ah, é por isso que a gente aprende com os erros? Não, a gente não aprende com os erros. A gente aprende com a correção dos erros. Se a gente aprendesse com os erros, o melhor método pedagógico seria essas bastante. (É bom lembrar que todo cogumelo é comestível. Alguns apenas uma vez).

CORTELLA, Mario Sergio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 24. ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 2015. p. 29-30.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Citação de A constância do sábio, de Sêneca

 

 

Não há porque julgues ser grande a nossa divergência [entre Sêneca e Epicuro]. Aquilo que é visado como único objetivo recebe das duas correntes filosóficas o mesmo parecer, isto é, o desdém pelas injúrias e para os insultos, coisas que eu denomino sombras e sugestões de ofensas. Aliás, para o menosprezo delas não é necessário ser sábio. Basta o bom senso para dizer a si mesmo: "Isto me acontece merecido ou imerecidamente? Se merecido, não é agravo e sim justiça. Se imerecido, o vexame da injustiça recai sobre quem praticou".

SÊNECA. A constância do sábio. Tradução de Luiz Feracine. São Paulo: Escala, 2007. p. 64.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Citação de poema de Gregório de Matos


 

Achando-se um braço perdido do menino Deus de N. S. das Maravilhas, que desacataram infiéis na Sé da Bahia

O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.
 

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica todo.
 

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo
Assiste cada parte em sua parte.
 

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

 

MATOS, Gregório. Achando-se um braço perdido do menino Deus de N. S. das Maravilhas, que desacataram infiéis na Sé da Bahia. In: MATOS, Gregório. Poemas escolhidos de Gregório de Matos. Seleção e organização de José Miguel Wisnik. São Paulo : Companhia das Letras, 2010. p. 326.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Citação de Dedal de areia, de Antonio Brasileiro


 

A PROSA DO MUNDO E O DEDAL DE AREIA


Espadachim das sombras multivárias,

há que cuidar dos minotauros da psique.

Eis que a verdade é multifacetada

e o mais, sombra de enigmas.


A deusa nua tem cheiro de jasmim

e a razão trescala a alho-porro.

 

BRASILEIRO, Antonio. A prosa do mundo e o dedal de areia. In: BRASILEIRO, Antonio. Dedal de areia. Rio de Janeiro. Garamond, 2006. p. 31.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

Citação de A constância do sábio, de Sêneca

 

Aquele que, com respaldo de sua racionalidade, atravessa pelas vicissitudes humanas, com ânimo divino, não abre espaço para acolher a injúria.

Pensas tu que só do lado dos homens não possa advir injúria?

Garanto que nem sequer da parte da fortuna, já que essa sempre que se encontra com a virtude, nunca se iguala a ela.

Se mesmo aquela prova máxima, além da qual não subsiste ameaça alguma, seja da parte de leis severas, seja da parte dos senhorios crudelíssimos, onde a fortuna encontra barreiras para seu império, nós a recebemos, de modo plácido e todo conformado, sabendo ser a morte não um mal e que por isso ela deixa de implicar injúria, então, com muito denodo, suportaremos todas as demais contrariedades, danos, dores, afrontas, lutas familiares e separações. Todas essas coisas, ainda que assediem o sábio, não o afogam porque tais ocorrências não o entristecem, mesmo quando agridem com assaltos sucessivos.

Posto que o sábio tolera, com controle, as injúrias oriundas oriundas da fortuna, quanto mais então irá suportar as originadas de homens prepotentes que são meros instrumentos dela.

SÊNECA. A constância do sábio. Tradução de Luiz Feracine. São Paulo: Escala, 2007. p. 42.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Citação de Estupros à razão e outras crônicas da vida vinagre, de Jorge de Souza Araujo

 


Por vezes me olho num imponderável espelho e me interrogo: sois parvo? Sim, porque não consigo ficar mudo e imóvel ante as fortunas da inteligência parindo siameses de mestres-salas e porta-bandeiras da idiotia. Em outros termos, contaminado pelos esgares da panaceia nacional, não alcanço comungar com a paralisia confortável sobre braços e cabeças, em mim mesmo identificando a febre da inquietude e reconhecendo que o imobilismo reativo gera capitulações e estas representam o mais rotundo dos fracassos humanos: a renúncia passiva a lutar pelos justos valores da vida digna.

ARAUJO, Jorge de Souza. Lei Seca cheia de bolor. In: ARAUJO, Jorge de Souza. Estupros à razão e outras crônicas da vida vinagre. Itabuna: Via Literarum, 2012. p. 77 [77-79].

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Citação de Antologia Poética, de Gregório de Matos

 

 

Moraliza o Poeta nos Ocidentes o Sol e a Inconstância dos bens do Mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

 

MATOS, Gregório de. [Moraliza o Poeta nos Ocidentes o Sol e a Inconstância dos bens do Mundo]. In: MATOS, Gregório de. Antologia poética. 7. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, [1991?]. p. 84.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Citação de Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade, de bell hooks

 

A escola mudou radicalmente com a interação social. O zelo messiânico de transformar nossa mente e o nosso ser, que caracterizava os professores e suas práticas pedagógicas nas escolas exclusivamente negras, era coisa do passado. De repente, o conhecimento passou a se resumir à pura informação. Não tinha relação com o modo de viver e de se comportar. Já não tinha ligação com a luta antirracista. Levados de ônibus a escolas de brancos, logo aprendemos que o que se esperava de nós era a obediência, não o desejo ardente de aprender. A excessiva ânsia de aprender era facilmente entendida como uma ameaça à autoridade branca.

Quando entramos em escolas brancas, racistas e dessegregadas, deixamos para trás um mundo onde professores acreditavam que precisavam de um compromisso político para educar corretamente as crianças negras. De repente, passamos a ter aula com professores brancos cujas lições reforçavam os estereótipos racistas. Para as crianças negras, a educação já não tinha a ver com a prática de liberdade. Quando percebi isso, perdi o gosto pela escola. A sala de aula já não era um lugar de prazer ou de êxtase. A escola ainda era um ambiente político, pois éramos obrigados a enfrentar a todo momento os pressupostos racistas dos brancos, de que éramos geneticamente inferiores, menos capacitados que os colegas, até incapazes de aprender. Apesar disso, essa política já não era contra-hegemônica. O tempo todo, estávamos somente respondendo e reagindo aos brancos.

Essa transição das queridas escolas exclusivamente negras para escolas brancas onde os alunos negros eram sempre vistos como penetras, como gente que não deveria estar ali, me ensinou a diferença entre a educação como prática de liberdade e a educação que só trabalha para reforçar a dominação.


HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. p. 11-12.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Citação de Tratado da reforma do entendimento, de Spinoza

 


Com as honras, na verdade, a mente se distrai muito mais ainda, pois se supõe sempre que sejam um bem em si mesmas e como o fim último, para o qual tudo converge. Além disso, nelas não ocorre, como no prazer sensual, arrependimento; mas quanto mais delas se possui, mais a alegria aumenta e consequentemente somos cada vez mais incitados a incrementá-las. Se, no entanto, ficamos em algum caso frustrados em nossa expectativa, então sobrevém uma profunda tristeza. Por fim, as honrarias constituem um grande impedimento, porque, para consegui-las, deve-se necessariamente dirigir a própria vida segundo a opinião dos homens, ou seja, fugindo dos que os homens fogem e procurando o que eles procuram.

SPINOZA, Baruch (Bento). Tratado da reforma do entendimento. Tradução de Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2007. p. 21. Texto integral bilíngue: latim-português.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Citação de Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos


 
Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa
Os séculos efêmeros e nota
Diminuição dinâmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.

É a subversão universal que ameaça
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E põe todos os astros na desgraça!

São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adiante,

Espião da cataclísmica surpresa,
A única luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!
 
 
ANJOS, Augusto dos. Apocalipse. In: ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martin Claret, 2004. p. 157-158.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Citação de A grande transformação (...), de Leonardo Boff

 


Se quisermos construir um mundo humano melhor precisamos afirmar valores que valem por si mesmos e desenvolver uma sabedoria que submeta a economia à política (a serviço do bem-estar dos seres humanos em sociedade) e a política à ética (a realização de valores). Esta estabelece os fins nobres e os meios adequados para uma felicidade possível aos humanos. Nós, na verdade, vivemos no mundo dos meios sem termos definido os fins que dão sentido à história. Esse fato é uma das fontes maiores de perpetuação da crise generalizada que assola a humanidade e sem vislumbrarmos uma saída imediata.

BOFF, Leonardo. A grande transformação: na economia, na política e na ecologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. p. 78.