Mostrando postagens com marcador citação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador citação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de março de 2026

Citação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis




— Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada. 

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos. 

— Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota? 

— Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me? 

— Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.


ASSIS, Machado de. Delírio. In: Memórias póstumas de Brás Cubas. Brasília; Câmara dos Deputados: Edições Câmara, 2018. p. 19. E-book. (Série prazer de ler; n. 13). Disponível em: http://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/36759. Acesso em: 27 mar. 2026.


sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Citação de Admirável mundo novo, de Aldous Huxley


Os livros e o barulho intenso, as flores e os choques elétricos - na mente infantil esses pares já estavam ligados de forma comprometedora; ao cabo de duzentas repetições da mesma lição, ou de outra parecida, estariam casados indissoluvelmente. O que o homem uniu, a natureza é incapaz de separar.
- Elas crescerão com o que os psicólogos chamavam de ódio "instintivo" aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionados. Ficarão protegidas contra os livros e a botânica por toda a vida - o diretor voltou-se para as enfermeiras. - Podem leva-las.

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano. São Paulo: Globo, 2014. p. 40.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Citação de A revolta dos meninos, descoberto Freire


Andando na larga e longa avenida, ele espiava os prédios, as pessoas, as lojas, os bares, os carros, os ônibus, o céu. Nossa, como o mundo era grande! Mas ele estava sozinho naquele mundaréu sem fim. E se sentiu pequenino, tão pequenino como uma formiga, que era o menor bicho que ele conhecia. Logo se lembrou da melodia do velho cantor e tentou assobiar. Ela saiu, perfeita, inteira. Começou de novo... e ela saiu mais uma vez prefeita! A emoção que o invadiu foi forte demais. Tudo se agitava dentro dele e uma coisa muito intensa aconteceu. Ele passou a mão pelo rosto e o sentiu molhado. Eram lágrimas! Enfim, ele tinha conseguido chorar! Pela primeira vez na vida. E ficou assobiando sem parar, mas as lágrimas logo secaram. João Pão se sentia novo. Muito mais forte e pronto para outra.

FREIRE, Roberto. A revolta dos meninos: as aventuras de João Pão, um menor abandonado. São Paulo: Moderna, 1994. (Coleção Veredas). p. 85-86.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Citação de É preciso lutar!, de Marcia Kupstas

 

 
Existem duas cidades dentro de uma.
Existe aquela que desperta às 6 ou 7 horas da manhã, com os olhos cheios de sono e as pernas cheias de pressa. Aquela que se aperta nos ônibus e trens, que boceja no volante dos automóveis, que tem um horário para o serviço, tem uma aula ou uma prova, que vive dentro de milhares de pessoas pelas ruas, comprando e vendendo, marcando compromissos e virando multidão.
E existe a outra. Aquela que só começa a existir depois que a multidão se vai, depois que as luzes das casas e apartamentos começam a se apagar e o silêncio do sono vai percorrendo as ruas. Essa outra cidade tem ruas vazias de gente e pouco trabalho, poucos carros e um outro morador, aqueles que se apertam nos bares e nas boates, ali sim, locais onde a noite é alegre. Mas, na maior parte, a cidade noturna está silenciosa e escura.
 
KUPSTAS, Marcia. É preciso lutar! 10. ed. São Paulo: FTD, 1992. (Coleção canto jovem). p. 89-90.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Citação de Poemas, de Carvalho Filho


 III

 

Só cicatrizes de estrelas excitando a memória.

Só estrelas ausentes eliminando o tempo em nós.

Só estrelas esterilizando a aurora em nós.

 

Nem os arados que revolvem a esperança.

Nem as luzes que plantam em nós

a aceitação da morte.

 

Nem o hálito dos profetas.

Nem o rasto dos apóstolos.

Nem os heróis.

Nem a vitória dos Santos

em si mesmos.


Nunca.

 

IV

 

A luz contempla o mundo.

 

Tudo é fértil em seu segredo,

segredos evanescentes na hora pura.

 

Sedimentos de claridade colorida

contêm os extremos do céu parado.

 

Há sombras que se refugiam e que se amam

acumuladas nas bases dos mortos. Libertas,

se dissiparão no silêncio noturno 

das praias.

 

As árvores meditam. Partirão depois

para as florestas.

 

É a vida no tempo.

É a vida presente no sangue

e nas coisas.

É a vida presente nos seres

e no sonho.

 

É a vida perpetuada em si mesma.

É a vida presente.

 

Sempre.



CARVALHO FILHO, [José Luiz de]. Poemas. Salvador: [s. n.], 1988. p. 47-48. Edição particular.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Citação de Do ser ao saber: relatos de experiência de pessoas que vive(ncia)ram a Graduando

 

 
 
A organização, a chamada para o envio de textos, a revisão e a feitura deste livro (e das duas últimas edições do periódico que lhe inspirou) aconteceram em meio a um acontecimento mundial que distanciou fisicamente as pessoas umas das outras, restando-nos a percepção segura do outro, durante muito tempo, por meio da internet, em transmissões de áudio e/ou vídeo por streaming, ou mesmo acesso a essas transmissões sempre que possível. Embora nem todos pudéssemos acessar tais serviços – muito menos com a estrutura e a qualidade necessárias –, fizemos isso e proporcionamos, por meio desses recursos, não raros, salvadores da sensação de solidão, o compartilhamento de nossos pensamentos, de nossa presença e de nossos gestos com a linguagem, principalmente com palavras escritas e faladas. Essas referências coletivas mais utilizadas de nossa linguagem uniram, unem e unirão pessoas em períodos de nossa história, sempre aglutinando parte do que fazemos em nossa geração e que, muitas vezes sem percebermos na medida de nosso próprio olhar, participam da formação de novas gerações e novas perspectivas nos espaços em que nos coube, em que nos cabe e em que nos caberá existir.
O livro que apresentamos é uma composição, como também o são os objetos que, em última análise, motivaram-no. É oportuno dizer “em última análise”, porque o livro marca os 10 anos de atuação da Graduando: entre o ser e o saber, revista acadêmica da graduação em Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na vida de pessoas que a foram incorporando às próprias leituras e nos espaços em que o periódico se fez presente, em textos escritos, em corpos vivos e em ideias propagadas. Ou seja, uma publicação para discentes, estudantes de graduação da área de Letras, completou uma década de publicação ininterrupta de artigos e resenhas, atividade rara quando da época de sua idealização e ainda pouco comum nos espaços e no tempo da publicação deste livro. Também em última análise, o material que corporifica o periódico é o resultado de horas de estudo, reflexão e escrita, momentos de pesquisa que exemplificam a experiência em destaque com a publicação: o exercício necessário do pensamento científico e acadêmico na formação do ser humano no universo da atuação sobre e para a própria vida.

CALIXTO, B. E. M. ; ALMEIDA, Danilo Cerqueira ; BARRETO, J. R. O. ; BATISTA, M. B. ; PEREIRA, V. S. Prefácio. In: CALIXTO, B. E. M. ; ALMEIDA, Danilo Cerqueira ; BARRETO, J. R. O. ; BATISTA, M. B. ; PEREIRA, V. S. Do ser ao saber: relatos de experiência de pessoas que vive(ncia)ram a Graduando. Nova Xavantina, 2021. p. [4-5]. Disponível em: https://www.editorapantanal.com.br/ebooks-capitulo.php?ebook_id=do-ser-ao-saber-relatos-de-experiencia-de-pessoas-que-vivenciaram-a-graduando&ebook_ano=2021&ebook_caps=1&ebook_org=1. Acesso em: 21 set. 2024. DOI: https://doi.org/10.46420/9786581460198.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Citação de Abismo intacto, de Yttérbio Homem de Siqueira

 

 
SALMO DO INSTANTE -V
Ao Dr. Possídio do Nascimento Coelho
e a José Matias Filho

Não esqueças este instante,

é tudo quanto possuis,

é mais forte mesmo

do que tua vida.


É teu espaço, este instante

imperecível e estrelar.

É tudo que tens de eterno:

incide doloroso e grande 

em tua vida. Percorreu

do orco as últimas instâncias.

Não o deixes perecer

entre os milênios

de instantes esmagados.


Ó, não sejas tu somente

uma morte implacável de instantes.


SIQUEIRA, Yttérbio Homem de. Salmo do Instante - V. In: SIQUEIRA, Yttérbio Homem de. Abismo intacto. Rio de Janeiro: José Olympio; Recife: Fundarte, 1983. p. 43.

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Citação de Projeto nacional: o dever da esperança, de Ciro Gomes

 

Defendo convictamente que a principal habilidade a ser desenvolvida pela educação no mundo atual é a capacidade de aprender a aprender e de lidar criticamente com o excesso de informações. Num mundo com tecnologias em permanente mudança, o brasileiro do presente e do futuro precisa ter uma capacidade adaptativa que só o pensamento crítico genuíno, fonte de todo o conhecimento humano, pode dar. Não existe mais lugar no mundo para o professor reprodutor de fórmulas e informações, simplesmente porque um volume incomensurável de informações está à distância de um clique. O professor, no entanto, retém seu papel fundamental de tutor de um aluno perdido num mar de dados sem saber como avaliá-los ou relacioná-los, de interlocutor individual capaz de identificar e intervir em dificuldades particulares de aprendizado, mostrando ao aluno a falha particular de pensamento que o impede de dominar determinado conteúdo ou habilidade. Enfim, cabe ao professor sempre ajudar a desenvolver no aluno o genuíno espírito crítico que, bem longe de ser a doutrinação ideológica que muitas vezes o termo esconde, é exatamente seu inverso: ensinar a abordar o mesmo problema ou conteúdo de pontos de vista diferentes.

GOMES, Ciro. Projeto nacional: o dever da esperança. São Paulo: LeYa, 2020. p. 164.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Citação de Ética para viver melhor: diferentes atitudes para agir corretamente, de C. S. Lewis


O único tipo de santidade que as Escrituras podem perder (pelo menos o Novo Testamento) pela modernização é algo que nunca teve para seus autores e seus leitores. O Novo Testamento não foi obra de arte literária no grego original: não foi escrito em tom solene e eclesiástico, mas na língua falada na porção oriental do Mediterrâneo depois que o grego se tornou língua internacional e, portanto, perdeu a beleza e a sutileza. Vemos o grego sendo usado pelos que não tsm um sentimento real pelas palavras gregas, porque elas não são as que usavam na infância. Seria grego "básico", uma língua sem raízes no solo, uma língua utilitária, comercial e administrativa. Isso nos choca? Mas não deveria acontecer, a não ser no mesmo nivel em que a Encarnação deve nos chocar. A mesma humildade divina que decretou que Deus se tornaria o bebê no seio de uma camponesa, e mais tarde um pregador de rua preso pela polícia romana, determinou, também, que Ele precária em linguagem vulgar, prosaica e não literária. Se você aceita uma parte, tem de aceitar a outra também.


LEWIS, C. S. A Ética dos textos bíblicos. In: Ética para viver melhor: diferentes atitudes para agir corretamente. São Paulo: Planeta, 2017. p. 164-165.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Citação de Poesia Reunida, de Affonso Romano de Sant'Anna

 

 

ARTE-FINAL


Não basta um grande amor

                                          para fazer poemas.

E o amor dos artistas, não se enganem,

não é mais belo

                         que o amor da gente.


O grande amante é aquele que silente

se aplica a escrever com o corpo

o que seu corpo deseja e sente.


Uma coisa é a letra,

e outra é o ato,

                        - quem toma uma por outra

                        confunde e mente.


SANT'ANNA, Affonso Romano de. Arte-final. In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. Poesia Reunida. Porto Alegre: L&PM, 2007. v. 1. p. .330

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Citação de Pesquisa na escola: o que é, como se faz, de Marcos Bagno

 


O segundo passo é uma simples troca de sílaba. Em vez de rePEtir alguma coisa, nós devemos reFLEtir sobre ela. A gramática tradicional, que vem norteando o ensino da língua há quase dois mil anos, não é uma ciência: é uma doutrina. Como toda doutrina, ela tem seus dogmas, que devem ser aceitos sem contestação e transmitidos intactos às gerações futuras. A nomenclatura gramatical, por exemplo, que usamos até hoje - sujeito, objeto, advérbio, subjuntivo, pretérito, antônimo, preposição, artigo, etc. - é a mesma proposta pelos gregos antes de cristo. O que o ensino gramatical faz, então, é repetir esses mesmos termos, conceitos e definições, sem submetê-los a uma análise profunda.

A atitude oposta é a atitude investigativa, reflexiva e crítica. Em vez de se contentar em receber um pacote pronto e passá-lo adiante, o cientista da linguagem abre esse pacote e vai ver o que tem lá dentro, por que aquelas coisas estão reunidas daquele jeito, para que elas servem realmente, para quem elas podem de fato ser úteis, se elas deviam mesmo estar ali, se o nome que elas recebem é adequado etc. etc.

BAGNO, Marcos. Pesquisa na escola: o que é, como se faz. 20. ed. São Paulo: Loyola, 2006. p. 82-83.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Citação de Juca Mulato, de Menotti Del Picchia

 

 
2
"Também como esse bosque eu tive outrora
na alma um bosque cerrado de emoções.
As palmeiras das minhas ilusões
iam levando o fuste espaço afora.
 
Floriam sonhos; era uma pletora
de crenças, de desejos, de ambições...
Não havia por todos os sertões
mais luxuriante e mais violenta flora.
 
Ai! Bosque real, é o tempo das queimadas!...
É agosto, é agosto! O fogo arde o que existe
em turbilhões sinistros e medonhos.
 
Ai de nós!... Somos almas desgraçadas,
pois na luz de um olhar lânguido e triste
também ardeu o bosque dos meus sonhos..."
 
3
"Água cantante, soluçante, esse gemente
marulho triste, quantas tristes cismas trás...
E fica incerta, ao ouvir-te a voz, a dor da gente,
se vais cantando por ansiar o que há na frente
ou soluçando pelo que deixaste atrás...
 
Água cantante, água estuante, é singular
a semelhança em que te iguala à minha sorte:
vais para a frente e nunca mais hás de voltar,
vens da montanha e vais correndo para o mar,
venho da vida e vou correndo para a morte.
 
Água cantante, ai, como tu, esta alma embrenho
nas incertezas de caminhos que não sei...
E, na inconstância em que me agito, só obtenho
essa ânsia imensa de deixar o que já tenho,
depois a dor de não ter mais o que deixei!"
 

PICCHIA, Paulo Menotti del. Juca Mulato. São Paulo: Círculo do Livro, 1975. p. 52-54.

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Citação de Teoria da comunicação literária, de Eduardo Portella


Para que o homem [e outros gêneros do ser humano] entre numa relação em uma relação criadora com a realidade é preciso que este relacionamento seja um ato de consciência. E nós diremos porque. É pela simples razão de que não há realidade sem consciência de realidade. A realidade faz e é feita pela consciência. Seremos mais exatos, aliás, se dissermos que a consciência é a própria realidade concentrada no seu princípio de unidade. Mas essa premissa teórica não tem sido tranqüilamente [sic] aeita ou compreendida. Por que? Porque as questões, por parecerem simples, por esconderem a sua complexidade, são tratadas simplificadamente, numa linha de formulação que vai da ingenuidade ao equívoco, passando algumas vezes pela má fé.


PORTELLA, Eduardo. O realismo como estrutura e as ameaças de setorização. In: PORTELLA, Eduardo. Teoria da comunicação literária. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro, 1973. p. 61.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Citação de Mevitevendo, de Artur da Távola (Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros)

 

 
 
Deus é sempre um pouco mais,. Mesmo no menos. Ele é minha procura, nova, a cada encontro. É meu fluxo de vida e não a minha vida. É minha amargura tanto quanto minha alegria, porque está na dimensão do que não tenho mas sei que existe porque Dele me fala o mistério: o doce mistério, da amarga mas perfumada trajetória, átomo da eternidade, fagulha de esperança, a que chamamos vida e atribuímos tanto, quando apenas é um espasmo da carne em forma de ser e susto. E o que é isso para o Absoluto?

TÁVOLA, Artur da. Muito pessoal. In: TÁVOLA, Artur da. Mevitevendo. 7. ed. Rio de Janeiro: PGL-Comunicação, 1981. p. 23 [22-23].

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Citação de A Gaia Ciência, de Nietzsche

 


 

A meditação perdeu toda a dignidade de sua forma; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflete e não se poderia continuar a suportar um homem sábio ao velho estilo. Pensamos depressa, pensamos pelo caminho, em plena marcha, no meio de negócios de toda espécie, mesmo quando se trate de pensar nas coisas mais sérias; basta-nos apenas um pouco de preparação e até mesmo pouco silêncio: - é  como se nossa cabeça contivesse uma máquina em movimento constante, que continuasse trabalhando mesmo nas condições mais impróprias para o pensamento. Outrora, quando alguém queria pensar - era realmente uma coisa excepcional!; era visto tornar-se mais calmo e preparar sua idéia [sic]: contraía o rosto como se fosse para uma oração e parava de caminhar; alguns ficavam até mesmo imóveis durante horas - apoiados numa só ou nas duas pernas - na rua, quando o pensamento "vinha". Isso era chamado "pensar".  

Nietzsche, Friedrich. A gaia ciência. Tradução de Antonio Carlos Braga. São Paulo: Escala, 2006. p. 44-45.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Citação de A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo

 


Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome.
Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio.
Sou míope; pior do que isso, duplamente míope, míope física e moralmente.
Miopia física: — a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta.
E por isso ando na cidade e não vejo as casas.
Miopia moral: — sou sempre escravo das ideias dos outros; por que nunca pude ajustar duas ideias minhas.
E por isso quando vou às galerias da câmara temporária ou do senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão.
Se ao menos eu não tivesse consciência dessa minha miopia moral!...
mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a única luz que brilha sem nuvens no meu espírito.
Disse-me um negociante meu amigo que por essa luz da consciência represento eu a antítese de não poucos varões assinalados que não têm dez por cento de capital da inteligência que ostentam, e com que negociam na praça das coisas públicas.
— Mas esses varões não quebram, negociando assim?... perguntei-lhe.
— Qual! são as coisas públicas que andam ou se mostram quebradas.
— E eles?...
— Continuam sempre a negociar com o crédito dos tolos, e sempre se apresentam como boas firmas.
Na cândida inocência da minha miopia moral não pude entender se havia simplicidade ou malícia nas palavras do meu amigo.

MACEDO, Joaquim Manuel de. A luneta mágica. 10 ed. 13. impres. São Paulo: Ática, 1999. (Série Bom Livro). p. 11.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Citação de Eclesiastes, da Bíblia

 

Eclesiástes 1 


1 Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém.
2 Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.
3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
4 Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre.
5 O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce.
6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro vai para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira, e retoma os seus circuitos.
7 Todos os ribeiros vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios correm, para ali continuam a correr.
8 Todas as coisas estão cheias de cansaço; ninguém o pode exprimir: os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
9 O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol.
10 Há alguma coisa de que se possa dizer: isto é novo? ela já existiu nos séculos que foram antes de nós.
11 Já não há lembrança das gerações passadas; nem das gerações futuras haverá lembrança entre os que virão depois delas.
12 Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém.
13 E apliquei o meu coração a inquirir e a investigar com sabedoria a respeito de tudo quanto se faz debaixo do céu; essa enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens para nela se exercitarem.
14 Atentei para todas as obras que se e fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão.
15 O que é torto não se pode endireitar; o que falta não se pode enumerar.
16 Falei comigo mesmo, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; na verdade, tenho tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento.
17 E apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão.
18 Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.

BÍBLIA, A. T. Eclesiástes. In: A Bíblia Sagrada: Almeida atualizada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Abbotsford, CAN: Zeiset, 2020. E-book. p. 1379-1380. Ec 1: 1-18.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Citação de Reflexões sobre a vaidade dos homens/ Carta sobre a fortuna, de Mathias Aires

 

 
De maneira incisiva, Mathias Aires começa a tecer a [sic] suas reflexões a partir do trecho bíblico extraído do Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas, ou seja, Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Ele vê no centro de suas Reflexões o pensamento do homem não como uma ponta solta da alma humana, mas como objeto que pertence e forma toda idéia do universo. Para o pensador, não há quem esteja imune à vaidade, ele se coloca entre os vaidosos ao ansiar pela publicação de sua própria obra. A vaidade é o fio condutor para que se possa entender todo o comportamento humano. O conceito está ligado diretamente a outros sentimentos, como orgulho, e alcança esferas de pensamento com a compreensão e a fantasia.
Na Carta Sobre [sic] a Fortuna, o autor se vê como um infortunado e responde, em forma de carta, a um desejo do Rei de que ele possua maior fortuna. Entretanto, a resposta incorpora uma longa explanação que confronta merecimento e fortuna. Para, por fim, concluir que ser afortunado na idade em que se encontrava o filósofo, nem seria verdadeira fortuna.

APRESENTAÇÃO. In: AIRES, Mathias. Reflexões sobre a vaidade dos homens/ Carta sobre a fortuna. São Paulo, SP: Escala, 2008. (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal). v. 21. p.12-13.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Citação de Sobre a Brevidade da Vida, de Sêneca


Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai. 4. Desse modo, não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim. Não somos privados, mas pródigos de vida. Como grandes riquezas, quando chegam às mãos de um mau administrador, em um curto espaço de tempo, se dissipam, mas, se modestas e confiadas a um bom guardião, aumentam com o tempo, assim a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir.

SÊNECA, Lúcio Anneo. Sobre a brevidade da vida. Tradução de Lúcia Sá Rabello, Ellen Itanajara Neves Vranas, Gabriel Nocchi Macedo. Porto Alegre: L&PM, 2013. (Coleção L&PM POCKET, v. 548). p. 26.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Citação de Dom Casmurro, de Machado de Assis



Do título

    Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
    — Continue, disse eu acordando.
    — Já acabei, murmurou ele.
    — São muito bonitos.
    Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você". — "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo". — "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça".
    Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 37. ed. São Paulo, SP: Ática, 1999. p. 13. (Série Bom Livro).