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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Citação de Do ser ao saber: relatos de experiência de pessoas que vive(ncia)ram a Graduando

 

 
 
A organização, a chamada para o envio de textos, a revisão e a feitura deste livro (e das duas últimas edições do periódico que lhe inspirou) aconteceram em meio a um acontecimento mundial que distanciou fisicamente as pessoas umas das outras, restando-nos a percepção segura do outro, durante muito tempo, por meio da internet, em transmissões de áudio e/ou vídeo por streaming, ou mesmo acesso a essas transmissões sempre que possível. Embora nem todos pudéssemos acessar tais serviços – muito menos com a estrutura e a qualidade necessárias –, fizemos isso e proporcionamos, por meio desses recursos, não raros, salvadores da sensação de solidão, o compartilhamento de nossos pensamentos, de nossa presença e de nossos gestos com a linguagem, principalmente com palavras escritas e faladas. Essas referências coletivas mais utilizadas de nossa linguagem uniram, unem e unirão pessoas em períodos de nossa história, sempre aglutinando parte do que fazemos em nossa geração e que, muitas vezes sem percebermos na medida de nosso próprio olhar, participam da formação de novas gerações e novas perspectivas nos espaços em que nos coube, em que nos cabe e em que nos caberá existir.
O livro que apresentamos é uma composição, como também o são os objetos que, em última análise, motivaram-no. É oportuno dizer “em última análise”, porque o livro marca os 10 anos de atuação da Graduando: entre o ser e o saber, revista acadêmica da graduação em Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na vida de pessoas que a foram incorporando às próprias leituras e nos espaços em que o periódico se fez presente, em textos escritos, em corpos vivos e em ideias propagadas. Ou seja, uma publicação para discentes, estudantes de graduação da área de Letras, completou uma década de publicação ininterrupta de artigos e resenhas, atividade rara quando da época de sua idealização e ainda pouco comum nos espaços e no tempo da publicação deste livro. Também em última análise, o material que corporifica o periódico é o resultado de horas de estudo, reflexão e escrita, momentos de pesquisa que exemplificam a experiência em destaque com a publicação: o exercício necessário do pensamento científico e acadêmico na formação do ser humano no universo da atuação sobre e para a própria vida.

CALIXTO, B. E. M. ; ALMEIDA, Danilo Cerqueira ; BARRETO, J. R. O. ; BATISTA, M. B. ; PEREIRA, V. S. Prefácio. In: CALIXTO, B. E. M. ; ALMEIDA, Danilo Cerqueira ; BARRETO, J. R. O. ; BATISTA, M. B. ; PEREIRA, V. S. Do ser ao saber: relatos de experiência de pessoas que vive(ncia)ram a Graduando. Nova Xavantina, 2021. p. [4-5]. Disponível em: https://www.editorapantanal.com.br/ebooks-capitulo.php?ebook_id=do-ser-ao-saber-relatos-de-experiencia-de-pessoas-que-vivenciaram-a-graduando&ebook_ano=2021&ebook_caps=1&ebook_org=1. Acesso em: 21 set. 2024. DOI: https://doi.org/10.46420/9786581460198.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Citação de Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal


CAPÍTULO I

Seção I

Das Regras Deontológicas

I - A dignidade, o decoro, o zelo, a eficácia e a consciência dos princípios morais são primados maiores que devem nortear o servidor público, seja no exercício do cargo ou função, ou fora dele, já que refletirá o exercício da vocação do próprio poder estatal. Seus atos, comportamentos e atitudes serão direcionados para a preservação da honra e da tradição dos serviços públicos.

II - O servidor público não poderá jamais desprezar o elemento ético de sua conduta. Assim, não terá que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas principalmente entre o honesto e o desonesto, consoante as regras contidas no art. 37, caput, e § 4°, da Constituição Federal.

III - A moralidade da Administração Pública não se limita à distinção entre o bem e o mal, devendo ser acrescida da idéia de que o fim é sempre o bem comum. O equilíbrio entre a legalidade e a finalidade, na conduta do servidor público, é que poderá consolidar a moralidade do ato administrativo.

IV- A remuneração do servidor público é custeada pelos tributos pagos direta ou indiretamente por todos, até por ele próprio, e por isso se exige, como contrapartida, que a moralidade administrativa se integre no Direito, como elemento indissociável de sua aplicação e de sua finalidade, erigindo-se, como conseqüência, em fator de legalidade.

V - O trabalho desenvolvido pelo servidor público perante a comunidade deve ser entendido como acréscimo ao seu próprio bem-estar, já que, como cidadão, integrante da sociedade, o êxito desse trabalho pode ser considerado como seu maior patrimônio.

VI - A função pública deve ser tida como exercício profissional e, portanto, se integra na vida particular de cada servidor público. Assim, os fatos e atos verificados na conduta do dia-a-dia em sua vida privada poderão acrescer ou diminuir o seu bom conceito na vida funcional.

VII - Salvo os casos de segurança nacional, investigações policiais ou interesse superior do Estado e da
Administração Pública, a serem preservados em processo previamente declarado sigiloso, nos termos da lei, a publicidade de qualquer ato administrativo constitui requisito de eficácia e moralidade, ensejando sua omissão comprometimento ético contra o bem comum, imputável a quem a negar.

VIII - Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação.

IX - A cortesia, a boa vontade, o cuidado e o tempo dedicados ao serviço público caracterizam o esforço pela disciplina. Tratar mal uma pessoa que paga seus tributos direta ou indiretamente significa causar-lhe dano moral. Da mesma forma, causar dano a qualquer bem pertencente ao patrimônio público, deteriorando-o, por descuido ou má vontade, não constitui apenas uma ofensa ao equipamento e às instalações ou ao Estado, mas a todos os homens de boa vontade que dedicaram sua inteligência, seu tempo, suas esperanças e seus esforços para construí-los.

X - Deixar o servidor público qualquer pessoa à espera de solução que compete ao setor em que exerça suas funções, permitindo a formação de longas filas, ou qualquer outra espécie de atraso na prestação do serviço, não caracteriza apenas atitude contra a ética ou ato de desumanidade, mas principalmente grave dano moral aos usuários dos serviços públicos.

XI - O servidor deve prestar toda a sua atenção às ordens legais de seus superiores, velando atentamente por seu cumprimento, e, assim, evitando a conduta negligente. Os repetidos erros, o descaso e o acúmulo de desvios tornam-se, às vezes, difíceis de corrigir e caracterizam até mesmo imprudência no desempenho da função pública.

XII - Toda ausência injustificada do servidor de seu local de trabalho é fator de desmoralização do serviço
público, o que quase sempre conduz à desordem nas relações humanas.

XIII - O servidor que trabalha em harmonia com a estrutura organizacional, respeitando seus colegas e cada concidadão, colabora e de todos pode receber colaboração, pois sua atividade pública é a grande oportunidade para o crescimento e o engrandecimento da Nação.


BRASIL. Decreto nº 1.171, de 22 de junho de 1994. Aprova o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1171.htm. Acesso em: 20 ago. 2024.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Citação de Pólvora, de Herbert Vianna

 


PÓLVORA

As teorias que explicam o universo
Os versos que vasculham o coração
Os garis, estivadores e arquitetos
A fé manipulada dos cristãos

As alegrias, alergias, os afetos
Os fatos, frases, a simulação
O país ajoelhado, a morte, o sexo
A culpa e o olhar de acusação

O que é tudo isso diante da Pólvora?
(Dessa paixão que se renova)

Os dias, datas de aniversário
Os quartos de hotel, o avião
Os livros, discos, dicionários
A madrugada e o olhar sem direção

Os velhos, as crianças e os parques
Os templos, tumbas e memoriais
A nova velha forma do desastre
Bandeiras, panos, lenços, aventais

O que é tudo isso diante da pólvora?
(Dessa paixão que se renova) 


PÓLVORA. Intérprete: Os Paralamas do Sucesso. Compositor: Herbert Vianna. In: BIG Bang. Intérprete: Os Paralamas do Sucesso. [S. l.]: EMI Music Brasil, 1989. 1 CD, faixa 3.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Citação de As pedras e o arco: fontes primárias, teoria e história da literatura

 


A memória constitui o ponto de intersecção entre as fontes e a criação artística. Se a noção de fontes pode abrigar tudo que antecede a produção de uma obra de arte, mas reaparece nela, é porque a memória apropriou-se da experiência prévia e elaborou-a, adaptando-a às necessidades de criação. A memória, portanto, fica a meio caminho entre o coletivo e o individual, o histórico e o pessoal, o apropriado e o original. 

Da importância da memória, fala a longa tradição em que ela é objeto de reflexão e assunto para a expressão artística.

Zilberman, Regina. “Minha teoria das edições humanas”: Memórias póstumas de Brás Cubas e a poética de Machado de Assis. In: ZILBERMAN, Regina; MOREIRA, Maria Eunice; BORDINI, Maria da Glória; REMÈDIOS, Maria Luiza Ritzel (org.). As pedras e o arco: fontes primárias, teoria e história da literatura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 18-19 [17-117].

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Citação de Literatulogia, de Janilto Andrade


 

A obra literária é artefato fonomorfossintático, é universo semântico; é campo sintomatológico da história, do social e da consciência; numa palavra: é presentificação imagética do homem em ação.

ANDRADE, Janilto. Literatulogia. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 1998. p. 15.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Citação de Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade, de bell hooks

 

A escola mudou radicalmente com a interação social. O zelo messiânico de transformar nossa mente e o nosso ser, que caracterizava os professores e suas práticas pedagógicas nas escolas exclusivamente negras, era coisa do passado. De repente, o conhecimento passou a se resumir à pura informação. Não tinha relação com o modo de viver e de se comportar. Já não tinha ligação com a luta antirracista. Levados de ônibus a escolas de brancos, logo aprendemos que o que se esperava de nós era a obediência, não o desejo ardente de aprender. A excessiva ânsia de aprender era facilmente entendida como uma ameaça à autoridade branca.

Quando entramos em escolas brancas, racistas e dessegregadas, deixamos para trás um mundo onde professores acreditavam que precisavam de um compromisso político para educar corretamente as crianças negras. De repente, passamos a ter aula com professores brancos cujas lições reforçavam os estereótipos racistas. Para as crianças negras, a educação já não tinha a ver com a prática de liberdade. Quando percebi isso, perdi o gosto pela escola. A sala de aula já não era um lugar de prazer ou de êxtase. A escola ainda era um ambiente político, pois éramos obrigados a enfrentar a todo momento os pressupostos racistas dos brancos, de que éramos geneticamente inferiores, menos capacitados que os colegas, até incapazes de aprender. Apesar disso, essa política já não era contra-hegemônica. O tempo todo, estávamos somente respondendo e reagindo aos brancos.

Essa transição das queridas escolas exclusivamente negras para escolas brancas onde os alunos negros eram sempre vistos como penetras, como gente que não deveria estar ali, me ensinou a diferença entre a educação como prática de liberdade e a educação que só trabalha para reforçar a dominação.


HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. p. 11-12.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Citação de História do Futuro, de Padre Antônio Vieira

 

Hão-se de ler nesta História, para exaltação da Fé, para triunfo da Igreja, para glória de Cristo, para felicidade e paz universal do Mundo, altos conselhos, animosas resoluções, religiosas empresas, heroicas façanhas, maravilhosas vitórias, portentosas conquistas, estranhas e espantosas mudanças de estados, de tempos, de gentes, de costumes, de governos, de leis; mas leis novas, governos novos, costumes novos, gentes novas, tempos novos, estados novos, conselhos e resoluções novas, empresas e façanhas novas, conquistas, vitórias, paz, triunfos e felicidades novas; e não só novas, porque são futuras, mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. Ouvirá o Mundo o que nunca viu, lerá o que nunca ouviu, admirará o que nunca leu, e pasmará assombrado do que nunca imaginou. E se as histórias daqueles escritores, sendo de cousas menores antigas e passadas, se leram sempre com gosto, e depois de sabidas se tornaram a ler sem fastio, confiança nos fica para esperar que não será ingrato aos leitores este nosso trabalho, e que será tão deleitosa ao gosto e ao juízo a História do Futuro, quanto é estranho ao papel o assunto e nome dela.

VIEIRA, Pe. Antônio. História do futuro. [S. l.: s. n., 201-?]. E-book Kindle. v. 1. Local. 60. Livro de domínio público.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Citação de Da utilidade e do inconveniente da história para a vida, de Nietzsche


 

Os homens e as épocas que servem a vida, julgando e destruindo o passado, sempre e ao mesmo tempo são perigosos e estão em perigo. De fato, a partir do momento que somos os rebentos de gerações anteriores, somos também os resultados dos erros dessas gerações, de suas paixões, de seus desvios e mesmo de seus crimes. Não é possível livrar-nos completamente dessa corrente. Se condenamos esses desvios pensando que nos desembaraçamos deles, o fato de que deles auferimos nossas origens não se suprime.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Da utilidade e do inconveniente da história para a vida. Tradução de Antônio Carlos Braga, Ciro Mioranza. São Paulo: Editora Escala, 2008. p. 46.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Citação de Da utilidade e do inconveniente da história para a vida, de Nietzsche


 

O conhecimento do passado, em todos os tempos, só é desejável quando está a serviço do passado e do presente e não quando enfraquece o presente, quando erradica os germes vivos do futuro. Tudo isso é simples, simples como a verdade e disso fica persuadido aquele mesmo que não tem necessidade que lhe demonstrem historicamente isso.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Da utilidade e do inconveniente da história para a vida. Tradução de Antônio Carlos Braga, Ciro Mioranza. São Paulo: Editora Escala, 2008. p. 49.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Citação de A expedição Montaigne, de Antonio Callado


 
Ieropé estava agora cismando por conta própria, porque sentia que, sem a menor dúvida, alguém soprava nele a música, dizendo a ele que só com muito e muitíssimo tempo é que alguém pode ter a esperança de encontrar o que afinal de contas ninguém perdeu e esteve sempre aí, mas não se vê nem se sente. Ele tinha é que descobrir não como o mundo e as coisas, os bichos e as plantas e os peixes se criam e se encaixam e sim, o que é muito mais simples, como se faz farelo e farinha de uma única coisa, a coisa ruim. Mas mesmo pra isso, Ieropé não se iludisse, ele precisava, devagarinho, ir virando ele mesmo aquilo que a natureza tivesse de mais forte porque os acontecimentos que mais aconteceram provocam e arrastam tantos outros acontecimentos que todos se defendem da extinção ao mesmo tempo: nenhum quer deixar de ter acontecido, desistindo de existir, coisa em que ninguém e nenhuma coisa acha graça nenhuma, como reza a lei que todo o mundo conhece. Achando que seguia e servia a música, o que não deixava de ser verdade, Ieropé irritava, sem saber, a música, que não esperava precisar castigá-lo e fazê-lo saltar tanto, devido ao orgulho e à soberba que ainda habitavam o pajé. É que Ieropé, forçoso é confessar, em sua busca da melhor forma de desatar o existido, partiu pras cabeceiras, pras presunções, procurando, em funda cisma, sorver pelos poros a sumaúma, que é a árvore maior de todas, e o raio, atrás que ele andava da força que nasce quando os dois se encontram, se rasgam e se dilaceram entre p céu e a terra pra fazer a solda do mundo do alto com o mundo das profundezas.

CALLADO, Antonio. A expedição Montaigne. 10. impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005 [1982]. p. 67-68.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Citação de Ensaios, de Montaigne


Como quer que seja e quaisquer que sejam as inépcias que me passam pela mente, não as esconderei, como não esconderia meu relato se em vez de jovem e belo me representasse calvo e grisalho como o sou, em verdade. Exponho aqui meus sentimentos e opiniões, dou-os como os concebo e não como os concebem os outros; meu único objetivo é analisar a mim mesmo e o resultado dessa análise pode, amanhã, ser bem diferente do de hoje, se novas experiências me mudarem. Não tenho autoridade para impor minha maneira de ver, nem o desejo, sabendo-me demasiado mal instruído para instruir os outros.

MONTAIGNE, Michel de. Da educação das crianças. In: MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. 4. ed. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1987. vol. 1, p. 76.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Virada?


Não sei porque estou escrevendo prestes a dormir. Talvez tenha medo do sono, do escurecer as vistas e não mais as levantar. Tudo parece um pouco sem sentido quando estamos prestes a dormir, vamos nos desligando do mundo até que, de repente, os olhos fecham... e sabe-se lá quando vão abrir novamente... Hão de abrir novamente, como a maioria de nós acorda horas depois...
Volto a escrever com sono este texto hoje, pouco mais de dois meses depois de ter começado, para enfim dar cabo desta ideia que se faz verbo, substantivo e tantas outras classes gramaticais, digamos, de uma forma básica de expressão linguística. Espero chegar ao final antes do dia seguinte, mas talvez não seja mais possível, pois tenho pouco mais de 15 minutos. Será?... Ouço um pouco de música enquanto tento escrever. Se a música é conhecida e boa, fujo um pouco do texto e presto atenção aos sons que me levam a  muitos anos anteriores... a dias pueris e desbravadores de espaços e pessoas... uma espécie de sono existencial, retorno aos primórdios da minha formação, de meu agir no mundo... e do mundo agindo em mim. Fim... 
Consegui?

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Citação de "O direito à literatura", de Antonio Candido


Toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto, de objeto construído; e é grande o poder humanizador desta construção, enquanto construção

De fato, quando elaboram uma estrutura, o poeta ou o narrador nos propõem um modelo de coerência, gerado pela força da palavra organizada. Se fosse possível abstrair o sentido e pensar nas palavras como tijolos de uma construção, eu diria que esses tijolos representam um modo de organizar a matéria, e que enquanto organização eles exercem papel ordenador sobre a nossa mente. Quer percebamos claramente ou não, o caráter de coisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossa própria mente e sentimentos; e, em consequência, mais capazes de organizar a visão que temos do mundo.


CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: Duas Cidades, 2011. p. 169-191. p. 179.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Citação de Tratado sobre a tolerância, de Voltaire


 

Finalmente, essa tolerância nunca provocou uma guerra civil; a intolerância cobriu a terra de carnificinas. Que se julgue agora entre essas duas rivais, entre a mãe que quer que seu filho seja degolado e a mãe que o cede, contanto que viva.

Não falo aqui senão do interesse das nações; respeitando, como devo, a teologia, só considero neste escrito o bem físico e moral da sociedade. Rogo a todo leitor imparcial para que pese essas verdades, as retifique e as difunda. Leitores atentos, que comunicam entre si suas ideias, sempre vão mais longe que o autor.

VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. Tradução de Antonio Geraldo da Silva. São Paulo: Escala, [2006]. p. 37.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Citação de Ben-Hur: uma história dos tempos de Cristo, de Lew Wallace

 

 
A boa vontade do leitor é novamente invocada em favor de uma explicação. Uma certa facilidade de acomodação em relação às religiões chega até nós, depois de muitas altercações com pessoas de fés diferentes; gradualmente compreendemos a verdade de que todo credo é ilustrado por homens bons que têm direito ao nosso respeito, mas a quem não podemos respeitar sem cortesia ao credo seguido. A esse ponto Ben-Hur chegara. Nem os anos em Roma, nem aqueles nas galés tinham tido qualquer efeito sobre sua fé religiosa. Ainda era judeu. em sua visão, apesar disso, não era uma heresia procurar a beleza no bosque de Dafne.

WALLACE, Lew. Ben-Hur: uma história dos tempos de Cristo. Tradução de Luiz Fernando Martins. 1. reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2014. p. 194.

quarta-feira, 13 de março de 2024

Citação de Operário em construção, de Vinicius de Moraes




O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
Rio de Janeiro , 1959

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


MORAES, Vinicius de. O operário em construção. VM Cultural, Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/o-operario-em-construcao. Acesso em: 9 mar. 2024.

segunda-feira, 11 de março de 2024

A chegada de Lampião no céu, Guaipuan Vieira

 
Ilustração do cordel (Amazon)

A chegada de Lampião no Céu

Foi numa Semana Santa
Tava o céu em oração
São Pedro estava na porta
Refazendo anotação
Daqueles santos faltosos
Quando chegou Lampião.

Pedro pulou da cadeira
Do susto que recebeu
Puxou as cordas do sino
Bem forte nele bateu
Uma legião de santos
Ao seu lado apareceu.

São Jorge chegou na frente
Com sua lança afiada
Lampião baixou os óculos
Vendo aquilo deu risada
Pedro disse: Jorge expulse
Ele da santa morada.

E tocou Jorge a corneta
Chamando sua guarnição
Numa corrente de força
Cada santo em oração
Pra que o santo Pai Celeste
Não ouvisse a confusão.

O pilotão apressado
Ligeiro marcou presença
Pedro disse a Lampião:
Eu lhe peço com licença
Saia já da porta santa
Ou haverá desavença.

Lampião lhe respondeu:
Mas que santo é o senhor?
Não aprendeu com Jesus
Excluir ódio e rancor?...
Trago paz nesta missão
Não precisa ter temor.

Disse Pedro isso é blasfêmia
É bastante astucioso
Pistoleiro e cangaceiro
Esse povo é impiedoso
Não ganharão o perdão
Do santo Pai Poderoso

Inda mais tem sua má fama
Vez por outra comentada
Quando há um julgamento
Duma alma tão penada
Porque fora violenta
Em sua vida é baseada.

- Sei que sou um pecador
O meu erro reconheço
Mas eu vivo injustiçado
Um julgamento eu mereço
Pra sanar as injustiças
Que só me causam tropeço.

Mas isso não faz sentido
Falou São Pedro irritado
Por uma tribuna livre
Você aqui foi julgado
E o nosso Onipotente
Deu seu caso encerrado

- Como fazem julgamento
Sem o réu estar presente?
Sem ouvir sua defesa?
Isso é muito deprimente
Você Pedro está mentindo
Disso nunca esteve ausente.

Sobre o batente da porta
Pedro bateu seu cajado
De raiva deu um suspiro
E falou muito exaltado:
Te excomungo Virgulino
Cangaceiro endiabrado.

Houve um grande rebuliço
Naquele exato momento
São Jorge e seus guerreiros
Cada qual mais violento
Gritaram pega o jagunço
Ele aqui não tem talento.

Lampião vendo o afronto
Naquela santa morada
Disse: Deus não está sabendo
Do que há na santarada
Bateu mão no velho rifle
Deu pra cima uma rajada.

O pipocado de bala
Vomitado pelo cano
Clareou toda a fachada
Do reino do Soberano
A guarnição assombrada
Fez Pedro mudar de plano.

Em um quarto bem acústico
Nosso Senhor repousava
O silêncio era profundo
Que nada estranho notava
Sem dúvida o Pai Celeste
Um cansaço demonstrava.

Pedro já desesperado
Ligeiro chamou São João
Lhe disse sobressaltado:
Vá chamar Cícero Romão
Pra acalmar seu afilhado
Que só causa confusão.

Resmungando bem baixinho
Pra raiva poder conter
Falou para Santo Antônio:
Não posso compreender
Este padre não é santo
O que aqui veio fazer?!

Disse Antônio: fale baixo
De José é convidado
Ele aqui ganhou adeptos
Por ser um padre adorado
No Nordeste brasileiro
Onde é “santificado”.

Padre Cícero experiente
Recolheu-se ao aposento
Fingindo não saber nada
Um plano traçava atento
Pra salvar seu afilhado
Daquele acontecimento.

- Logo João bateu na porta
Lhe transmitindo o recado
Cícero disse: vá na frente
Fique despreocupado
Diga a Pedro que se acalme
Isso já será sanado.

Alguns minutos o padre
Com uma Bíblia na mão
Ao ver Pedro lhe indagou:
O que há para aflição?
Quem lá fora tenta entrar
E também um ser cristão,

São Pedro disse: absurdo
Que terminou de falar
Mas Cícero foi taxativo:
Vim a confusão sanar
Só escute o réu primeiro
Antes de você julgar.

Não precisa ele entrar
Nesta sagrada mansão
O receba na guarita
Onde fica a guarnição
Com certeza há muitos anos
Nos busca aproximação.
 

Vou abrir esta exceção
Falou Pedro insatisfeito
O nosso reino sagrado
Merece muito respeito
Virou-se para São Paulo:
Vá buscar este sujeito.

Lampião tirou o chapéu
Descalço também ficou
Avistando o seu padrinho
Aos seus pés se ajoelhou
O encontro foi marcante
De emoção Pedro chorou

Ao ver Pedro transformado
Levantou-se e foi dizendo:
Sou um homem injustiçado
E por isso estou sofrendo
Circula em torno de mim
Só mesmo o lado ruim
Como herói não estão me vendo.

Sou o Capitão Virgulino
Guerrilheiro do sertão
Defendi o nordestino
Da mais terrível aflição
Por culpa duma polícia
Que promovia malícia
Extorquindo o cidadão.

Por um cruel fazendeiro
Foi meu pai assassinado
Tomaram dele o dinheiro
De duro serviço honrado
Ao vingar a sua morte
O destino em má sorte
Da “lei” me fez um soldado.

Mas o que devo a visita.
Pedro fez indagação
Lampião sem bater vista:
Vê padim Ciço Romão
Pra antes do ano novo
Mandar chuva pro meu povo
Você só manda trovão

Pedro disse: é malcriado
Nem o diabo lhe aceitou
Saia já seu excomungado
Sua hora já esgotou
Volte lá pro seu Nordeste
Que só o cabra da peste
Com você se acostumou.

FIM

 

VIEIRA, Guaipuan, A chegada de Lampião no Céu. [S. l.]: Centro Cultural Digital, 1997. Disponível em https://centrocultural.com.br/items/show/13. Acesso em: 27 fev. 2024.