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sexta-feira, 27 de março de 2026

Citação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis




— Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada. 

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos. 

— Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota? 

— Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me? 

— Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.


ASSIS, Machado de. Delírio. In: Memórias póstumas de Brás Cubas. Brasília; Câmara dos Deputados: Edições Câmara, 2018. p. 19. E-book. (Série prazer de ler; n. 13). Disponível em: http://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/36759. Acesso em: 27 mar. 2026.


quarta-feira, 30 de julho de 2025

Citações de Olhos d'água, de Conceição Evaristo


Lumbiá tinha ainda outros truques. Sabia chorar, quando queria. Escolhia uma mesa qualquer, sentava, abaixava a cabeça e se banhava em lágrimas. Sempre começava chorando por safadeza, mas em meio às lágrimas ensaiadas, o choro real, profundo, magoado se confundia. Nas histórias, que inventava nos momentos de choro para comover as pessoas, tinha sempre uma dissimulada verdade. Um dado real da vida dele ou do amigo Gunga se confundia com a invenção do menino. E enquanto chorava o pranto ensaiado para comover os compradores, contava ora sobre a surra que havia levado da mãe, ora pela mercadoria que estava ficando encalhada (e ele precisava retornar para casa com um bom resultado de venda), ou ainda, pelo dinheiro, fruto de seu trabalho, que tinha sido tomado por um menino maior... E aos poucos, em meio às verdades-mentiras que tinha inventado, Lumbiá ia se descobrindo realmente triste, tão triste, profundamente magoado, atormentado em seu peito-coração menino.


EVARISTO, Conceição. Lumbiá. In: EVARISTO, Conceição. Olhos d'água. 1. ed. 21. reimp. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 81-86.


— Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel. Vivo implicando com as novelas de minha mãe. Entretanto, sei que ela separa e separa com violência os dois mundos. Ela sabe que a verdade da telinha é a da ficção. Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro. Tenho fome, outra fome. Meu leite jorra para o alimento de meu filho e de filhos alheios. Quero contagiar de esperanças outras bocas. Lidinha e Biunda tiveram filhos também, meninas. Biunda tem o leite escasso, Lidinha trabalha o dia inteiro. Elas trazem as menininhas para eu alimentar. Entre Dorvi e os companheiros dele havia o pacto de não morrer. Eu sei que não morrer, nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas. Meu filho dorme. Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito...


EVARISTO, Conceição. A gente combinamos de não morrer. In: EVARISTO, Conceição. Olhos d'água. 1. ed. 21. reimp. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 99-109.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Citação de Admirável mundo novo, de Aldous Huxley


Os livros e o barulho intenso, as flores e os choques elétricos - na mente infantil esses pares já estavam ligados de forma comprometedora; ao cabo de duzentas repetições da mesma lição, ou de outra parecida, estariam casados indissoluvelmente. O que o homem uniu, a natureza é incapaz de separar.
- Elas crescerão com o que os psicólogos chamavam de ódio "instintivo" aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionados. Ficarão protegidas contra os livros e a botânica por toda a vida - o diretor voltou-se para as enfermeiras. - Podem leva-las.

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano. São Paulo: Globo, 2014. p. 40.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Citação de A revolta dos meninos, descoberto Freire


Andando na larga e longa avenida, ele espiava os prédios, as pessoas, as lojas, os bares, os carros, os ônibus, o céu. Nossa, como o mundo era grande! Mas ele estava sozinho naquele mundaréu sem fim. E se sentiu pequenino, tão pequenino como uma formiga, que era o menor bicho que ele conhecia. Logo se lembrou da melodia do velho cantor e tentou assobiar. Ela saiu, perfeita, inteira. Começou de novo... e ela saiu mais uma vez prefeita! A emoção que o invadiu foi forte demais. Tudo se agitava dentro dele e uma coisa muito intensa aconteceu. Ele passou a mão pelo rosto e o sentiu molhado. Eram lágrimas! Enfim, ele tinha conseguido chorar! Pela primeira vez na vida. E ficou assobiando sem parar, mas as lágrimas logo secaram. João Pão se sentia novo. Muito mais forte e pronto para outra.

FREIRE, Roberto. A revolta dos meninos: as aventuras de João Pão, um menor abandonado. São Paulo: Moderna, 1994. (Coleção Veredas). p. 85-86.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Citação de É preciso lutar!, de Marcia Kupstas

 

 
Existem duas cidades dentro de uma.
Existe aquela que desperta às 6 ou 7 horas da manhã, com os olhos cheios de sono e as pernas cheias de pressa. Aquela que se aperta nos ônibus e trens, que boceja no volante dos automóveis, que tem um horário para o serviço, tem uma aula ou uma prova, que vive dentro de milhares de pessoas pelas ruas, comprando e vendendo, marcando compromissos e virando multidão.
E existe a outra. Aquela que só começa a existir depois que a multidão se vai, depois que as luzes das casas e apartamentos começam a se apagar e o silêncio do sono vai percorrendo as ruas. Essa outra cidade tem ruas vazias de gente e pouco trabalho, poucos carros e um outro morador, aqueles que se apertam nos bares e nas boates, ali sim, locais onde a noite é alegre. Mas, na maior parte, a cidade noturna está silenciosa e escura.
 
KUPSTAS, Marcia. É preciso lutar! 10. ed. São Paulo: FTD, 1992. (Coleção canto jovem). p. 89-90.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Citação de Poemas, de Carvalho Filho


 III

 

Só cicatrizes de estrelas excitando a memória.

Só estrelas ausentes eliminando o tempo em nós.

Só estrelas esterilizando a aurora em nós.

 

Nem os arados que revolvem a esperança.

Nem as luzes que plantam em nós

a aceitação da morte.

 

Nem o hálito dos profetas.

Nem o rasto dos apóstolos.

Nem os heróis.

Nem a vitória dos Santos

em si mesmos.


Nunca.

 

IV

 

A luz contempla o mundo.

 

Tudo é fértil em seu segredo,

segredos evanescentes na hora pura.

 

Sedimentos de claridade colorida

contêm os extremos do céu parado.

 

Há sombras que se refugiam e que se amam

acumuladas nas bases dos mortos. Libertas,

se dissiparão no silêncio noturno 

das praias.

 

As árvores meditam. Partirão depois

para as florestas.

 

É a vida no tempo.

É a vida presente no sangue

e nas coisas.

É a vida presente nos seres

e no sonho.

 

É a vida perpetuada em si mesma.

É a vida presente.

 

Sempre.



CARVALHO FILHO, [José Luiz de]. Poemas. Salvador: [s. n.], 1988. p. 47-48. Edição particular.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Citação de Abismo intacto, de Yttérbio Homem de Siqueira

 

 
SALMO DO INSTANTE -V
Ao Dr. Possídio do Nascimento Coelho
e a José Matias Filho

Não esqueças este instante,

é tudo quanto possuis,

é mais forte mesmo

do que tua vida.


É teu espaço, este instante

imperecível e estrelar.

É tudo que tens de eterno:

incide doloroso e grande 

em tua vida. Percorreu

do orco as últimas instâncias.

Não o deixes perecer

entre os milênios

de instantes esmagados.


Ó, não sejas tu somente

uma morte implacável de instantes.


SIQUEIRA, Yttérbio Homem de. Salmo do Instante - V. In: SIQUEIRA, Yttérbio Homem de. Abismo intacto. Rio de Janeiro: José Olympio; Recife: Fundarte, 1983. p. 43.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Citação de Poesia Reunida, de Affonso Romano de Sant'Anna

 

 

ARTE-FINAL


Não basta um grande amor

                                          para fazer poemas.

E o amor dos artistas, não se enganem,

não é mais belo

                         que o amor da gente.


O grande amante é aquele que silente

se aplica a escrever com o corpo

o que seu corpo deseja e sente.


Uma coisa é a letra,

e outra é o ato,

                        - quem toma uma por outra

                        confunde e mente.


SANT'ANNA, Affonso Romano de. Arte-final. In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. Poesia Reunida. Porto Alegre: L&PM, 2007. v. 1. p. .330

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Citação de Juca Mulato, de Menotti Del Picchia

 

 
2
"Também como esse bosque eu tive outrora
na alma um bosque cerrado de emoções.
As palmeiras das minhas ilusões
iam levando o fuste espaço afora.
 
Floriam sonhos; era uma pletora
de crenças, de desejos, de ambições...
Não havia por todos os sertões
mais luxuriante e mais violenta flora.
 
Ai! Bosque real, é o tempo das queimadas!...
É agosto, é agosto! O fogo arde o que existe
em turbilhões sinistros e medonhos.
 
Ai de nós!... Somos almas desgraçadas,
pois na luz de um olhar lânguido e triste
também ardeu o bosque dos meus sonhos..."
 
3
"Água cantante, soluçante, esse gemente
marulho triste, quantas tristes cismas trás...
E fica incerta, ao ouvir-te a voz, a dor da gente,
se vais cantando por ansiar o que há na frente
ou soluçando pelo que deixaste atrás...
 
Água cantante, água estuante, é singular
a semelhança em que te iguala à minha sorte:
vais para a frente e nunca mais hás de voltar,
vens da montanha e vais correndo para o mar,
venho da vida e vou correndo para a morte.
 
Água cantante, ai, como tu, esta alma embrenho
nas incertezas de caminhos que não sei...
E, na inconstância em que me agito, só obtenho
essa ânsia imensa de deixar o que já tenho,
depois a dor de não ter mais o que deixei!"
 

PICCHIA, Paulo Menotti del. Juca Mulato. São Paulo: Círculo do Livro, 1975. p. 52-54.

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Citação de Teoria da comunicação literária, de Eduardo Portella


Para que o homem [e outros gêneros do ser humano] entre numa relação em uma relação criadora com a realidade é preciso que este relacionamento seja um ato de consciência. E nós diremos porque. É pela simples razão de que não há realidade sem consciência de realidade. A realidade faz e é feita pela consciência. Seremos mais exatos, aliás, se dissermos que a consciência é a própria realidade concentrada no seu princípio de unidade. Mas essa premissa teórica não tem sido tranqüilamente [sic] aeita ou compreendida. Por que? Porque as questões, por parecerem simples, por esconderem a sua complexidade, são tratadas simplificadamente, numa linha de formulação que vai da ingenuidade ao equívoco, passando algumas vezes pela má fé.


PORTELLA, Eduardo. O realismo como estrutura e as ameaças de setorização. In: PORTELLA, Eduardo. Teoria da comunicação literária. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro, 1973. p. 61.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Citação de Mevitevendo, de Artur da Távola (Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros)

 

 
 
Deus é sempre um pouco mais,. Mesmo no menos. Ele é minha procura, nova, a cada encontro. É meu fluxo de vida e não a minha vida. É minha amargura tanto quanto minha alegria, porque está na dimensão do que não tenho mas sei que existe porque Dele me fala o mistério: o doce mistério, da amarga mas perfumada trajetória, átomo da eternidade, fagulha de esperança, a que chamamos vida e atribuímos tanto, quando apenas é um espasmo da carne em forma de ser e susto. E o que é isso para o Absoluto?

TÁVOLA, Artur da. Muito pessoal. In: TÁVOLA, Artur da. Mevitevendo. 7. ed. Rio de Janeiro: PGL-Comunicação, 1981. p. 23 [22-23].

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Citação de A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo

 


Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome.
Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio.
Sou míope; pior do que isso, duplamente míope, míope física e moralmente.
Miopia física: — a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta.
E por isso ando na cidade e não vejo as casas.
Miopia moral: — sou sempre escravo das ideias dos outros; por que nunca pude ajustar duas ideias minhas.
E por isso quando vou às galerias da câmara temporária ou do senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão.
Se ao menos eu não tivesse consciência dessa minha miopia moral!...
mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a única luz que brilha sem nuvens no meu espírito.
Disse-me um negociante meu amigo que por essa luz da consciência represento eu a antítese de não poucos varões assinalados que não têm dez por cento de capital da inteligência que ostentam, e com que negociam na praça das coisas públicas.
— Mas esses varões não quebram, negociando assim?... perguntei-lhe.
— Qual! são as coisas públicas que andam ou se mostram quebradas.
— E eles?...
— Continuam sempre a negociar com o crédito dos tolos, e sempre se apresentam como boas firmas.
Na cândida inocência da minha miopia moral não pude entender se havia simplicidade ou malícia nas palavras do meu amigo.

MACEDO, Joaquim Manuel de. A luneta mágica. 10 ed. 13. impres. São Paulo: Ática, 1999. (Série Bom Livro). p. 11.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Citação de Dom Casmurro, de Machado de Assis



Do título

    Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
    — Continue, disse eu acordando.
    — Já acabei, murmurou ele.
    — São muito bonitos.
    Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você". — "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo". — "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça".
    Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 37. ed. São Paulo, SP: Ática, 1999. p. 13. (Série Bom Livro).

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Citação de O Guarani, de José de Alencar

 

Assim, estes dois selvagens das matas do Brasil, cada um com as suas armas, cada um com a consciência de sua força e de sua coragem, consideravam-se mutuamente como vítimas que iam ser imoladas.

O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou a coisa de quinze passos do inimigo, retraiu-se com uma força de elasticidade extraordinária e atirou-se como um estilhaço de rocha, cortada pelo raio.

Foi cair sobre o índio, apoiado nas largas patas detrás, com o corpo direito, as garras estendidas para degolar a sua vítima, e os dentes prontos a cortar-lhe a jugular.

A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em que se vira brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pele azevichada, já a fera tocava o chão com as patas.

Mas tinha em frente um inimigo digno dela, pela força e agilidade.

Como a princípio, o índio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava na esquerda a longa forquilha, sua única defesa; os olhos sempre fixos magnetizavam o animal. No momento em que o tigre se lançara, curvou-se ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, caindo com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentiu o forcado cerrar-lhe o colo, e vacilou.

Então, o selvagem distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao lançar o bote; fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e foi cair sobre o ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas, com a cabeça presa ao chão pelo gancho, debatia-se contra o seu vencedor, procurando debalde alcançá-lo com as garras.

Esta luta durou minutos; o índio, com os pés apoiados fortemente nas pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim imóvel a fera, que há pouco corria a mata não encontrando obstáculos à sua passagem.

Quando o animal, quase asfixiado pela estrangulação, já não fazia senão uma fraca resistência, o selvagem, segurando sempre a forquilha, meteu a mão debaixo da túnica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada à cintura em muitas voltas.

Nas pontas desta corda havia dois laços que ele abriu com os dentes e passou nas patas dianteiras ligando-as fortemente uma à outra; depois fez o mesmo às pernas, e acabou por amarrar as duas mandíbulas, de modo que a onça não pudesse abrir a boca.

Feito isto, correu a um pequeno arroio que passava perto; e enchendo de água uma folha de cajueiro-bravo, que tornou cova, veio borrifar a cabeça da fera. Pouco a pouco o animal ia tornando a si; e o seu vencedor aproveitava este tempo para reforçar os laços que o prendiam, e contra os quais toda a força e agilidade do tigre seriam impotentes.

Neste momento uma cutia tímida e arisca apareceu na lezíria da mata, e adiantando o focinho, escondeu-se arrepiando o seu pêlo vermelho e afogueado.

O índio saltou sobre o arco, e abateu-a daí a alguns passos no meio da carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava, arrancou a flecha, e veio deixar cair nos dentes da onça as gotas do sangue quente e fumegante.

Apenas o tigre moribundo sentiu o odor da carniça, e o sabor do sangue que filtrando entre as presas caíra na boca, fez uma contorção violenta, e quis soltar um urro que apenas exalou-se num gemido surdo e abafado.

O índio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que a atavam de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que pudesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais terrível.

Quando o índio satisfez o prazer de contemplar o seu cativo quebrou na mata dois galhos secos de biribá, e rogando rapidamente um contra o outro, tirou fogo pelo atrito e tratou de preparar a sua caça para jantar.

Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que ele acompanhou com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas colmeias no chão. Foi ao regato, bebeu alguns goles de água, lavou as mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho.

Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeu ao ombro, e vergando ao peso do animal que se debatia em contorções, tomou a picada por onde tinha seguido a cavalgata.

ALENCAR, José de. O Guarani. 21. ed. São Paulo, SP: Ática, 1997. p. 30-31. (Série Bom Livro).

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Citação de Poema, de Danilo Cerqueira

Foto: Danilo Cerqueira
Foto: Danilo Cerqueira

 
 
Poema
 
Olho e saio da vida
Com o risco de esfolar o grão
Que cresce no entorno do vago
Com a órbita do homem em vão
 
Grave e leve, semente à vista, pesa e voa!
Infunde no vácuo o seixo molhado
Poço d'água ao sol entoa
Que a certeza da queda é o ocaso...
 
22/08/2013

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Citação de A palavra certa, de Herbert Vianna, George Israel, Paula Toller

 

 

A PALAVRA CERTA

Atravesso a noite com um verso
Que não se resolve
Na outra mão as flores
Como se flores bastassem
Eu espero
E espero


Não funcionam luzes, telefones
Nada se resolve
Trens parados, Carros enguiçados
Aviões no pátio esperam
E esperam


A chave que abre o céu
D´aonde caem as palavras
A palavra certa
Que faça o mundo andar

 

A PALAVRA certa. Intérprete: Herbert Vianna. Compositores: Herbert Vianna, George Israel, Paula Toller. In: SANTORINI Blues. Intérprete: Herbert Vianna. [S. l.]: EMI Music Brasil, 1997. 1 CD, faixa 7.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Citação de Retrato de um artista quando jovem, de James Joyce


— Essa raça e esse país e essa vida fizeram de mim quem eu sou, disse. Vou me expressar da maneira como sou.
— Tente ser um de nós, repetiu Davin. No fundo você é um irlandês mas você tem orgulho demais para admitir.
— Meus antepassados jogaram fora essa língua e adotaram outra, respondeu Stephen. Permitiram que um punhado de forasteiros os subjugassem. Você acha que vou pagar com a minha vida e com a minha pessoa as dívidas que contraíram? Por quê?
— Pela nossa liberdade, disse Davin.
— Desde a época de Tone até à de Parnell, disse Stephen, não houve um único homem sincero e honrado que tenha sacrificado a vida e a juventude e as próprias afeições pelos irlandeses sem que mais tarde o tenham vendido ao inimigo ou renegado na hora de maior necessidade ou abandonado em favor de outro. E você ainda me convida para ser um de vocês. Vá para o inferno.
— Essas pessoas morreram por um ideal, Stevie, disse Davin. Acredite, o nosso dia vai chegar.
Stephen, entretido com os pensamentos, manteve-se em silêncio por alguns instantes.
— A alma nasce, afirmou de maneira vaga, em instantes como aqueles que contei para você. É um nascimento lento e obscuro, mais cercado de mistérios do que o nascimento do corpo. Quando a alma de um homem nasce nesse país é necessário prendê-la com redes para que não fuja. Você fala sobre nacionalidade, língua, religião. Se eu puder vou evitar essas redes.
Davin bateu as cinzas do cachimbo.
— Isso é profundo demais para mim, Stevie, disse por fim. Mas a pátria de um homem vem antes de qualquer coisa. A Irlanda acima de tudo, Stevie. Depois você pode ser poeta ou místico se quiser.
— Você sabe o que é a Irlanda?, perguntou Stephen com uma violência fria. A Irlanda é uma porca velha que come as próprias crias.


JOYCE, James. Retrato de um artista quando jovem. Tradução de Guilherme da Silva Braga. São Paulo: Mediafashion, 2016. (Coleção Folha. Grandes nomes da literatura, v. 8). p. 214-215.

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Citação de Setembro na Feira, de Juarez Bahia


As Melindrosas são mesmo a ufania da Queimadinha, depois do gado. Seu Ia de porta-estandarte, um aprendiz de tipógrafo, desde as damas ao grupo musical se encontram as criaturas mais diferenciadas, os vaqueiros, filhos de coronéis, comerciantes, empregados, mulatos, brancos, pretos — uma completa mistura sob a bandeira amarela, rosa e vermelha, com seu lema impregnado de filosofia: a alegria não tem cor, não tem raça nem religião.

Só o padre Amílcar do Carmo implicava com isso, pois — afirmava-o solenemente —, alegria pode não ter cor nem raça, mas tem religião, a alegria é católica, é cristã e ainda possui a sua moral. E quem, porventura, vier a contestar tal conceito estará sujeito a ir para o inferno, onde já se acha o Lucas do Limão, vulgarmente conhecido como Lucas da Feira, enforcado neste Campo do Gado.

BAHIA, Juarez. Setembro na Feira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 34.
 

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Citação de As pedras e o arco: fontes primárias, teoria e história da literatura

 


A memória constitui o ponto de intersecção entre as fontes e a criação artística. Se a noção de fontes pode abrigar tudo que antecede a produção de uma obra de arte, mas reaparece nela, é porque a memória apropriou-se da experiência prévia e elaborou-a, adaptando-a às necessidades de criação. A memória, portanto, fica a meio caminho entre o coletivo e o individual, o histórico e o pessoal, o apropriado e o original. 

Da importância da memória, fala a longa tradição em que ela é objeto de reflexão e assunto para a expressão artística.

Zilberman, Regina. “Minha teoria das edições humanas”: Memórias póstumas de Brás Cubas e a poética de Machado de Assis. In: ZILBERMAN, Regina; MOREIRA, Maria Eunice; BORDINI, Maria da Glória; REMÈDIOS, Maria Luiza Ritzel (org.). As pedras e o arco: fontes primárias, teoria e história da literatura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 18-19 [17-117].

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Citação de Memórias de um porteiro, de Denival Matias Conceição

 
Tenho saudades da vida longa, quero viver até oitocentos anos para eu poder falar de amor. Quero voltar ao jardim do Éden, ter uma mulher feita pra mim, com minhas essências, meus traços e virtudes.. Que se parecesse com Maria, que foi capaz de ser escolhida para gerar Jesus homem. 
Eu tenho falta de tudo. Os ventos estão agressivos, a natureza reclama. Tenho saudade da cidade deserta às 18 horas, da liberdade de visitar as praças. O trânsito congestionado, e eu me interrogo: para que tanta pressa?
A vida expulsou o silêncio,a calmaria se desvairou em ruídos tenebrosos, e eu me recolho, estou me implodindo aos poucos junto com a vida que se vai prematuramente.
Tenho saudade do mundo antigo, onde os idosos eram experiências acumuladas, o sol não brilhava tão forte, e as tempestades divertiam os meus olhos em meio à poeira do redemoinho, hoje destroçam cidades inteiras.
No presente, lembranças de como foi bom o passado, e o futuro será nem melhor que o presente.
Uma andorinha ferida é como me sinto, sem forças para gorjear. Minha alma nua em silêncio, as palavras mudas. Que palavras? Elas invadem minha alma. Malditas palavras. Pensamentos silenciosos, solitários. Vou tentando voar mais alto. Com minhas asas cansadas e feridas.
O vento me levará além do horizonte, já vejo daqui das nuvens o caminho. Romper a barreira do silêncio... ele me dirá: conseguiu chegar.
Ficarei morando ali até a eternidade, e em palavras doces se transformarão aquelas malditas palavras.
Bendito seja o criador desse amor bonito, o meu mundo seria vazio sem ele. Enfeitarei os livros, as imagens, os versos. Os sons das manhãs e noites silenciosas.
 
CONCEIÇÃO, Denival Matias. Memórias de um porteiro. São Paulo: Biblioteca24horas, 2011. p. 69-70.