Mostrando postagens com marcador civilização. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador civilização. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Citações de Olhos d'água, de Conceição Evaristo


Lumbiá tinha ainda outros truques. Sabia chorar, quando queria. Escolhia uma mesa qualquer, sentava, abaixava a cabeça e se banhava em lágrimas. Sempre começava chorando por safadeza, mas em meio às lágrimas ensaiadas, o choro real, profundo, magoado se confundia. Nas histórias, que inventava nos momentos de choro para comover as pessoas, tinha sempre uma dissimulada verdade. Um dado real da vida dele ou do amigo Gunga se confundia com a invenção do menino. E enquanto chorava o pranto ensaiado para comover os compradores, contava ora sobre a surra que havia levado da mãe, ora pela mercadoria que estava ficando encalhada (e ele precisava retornar para casa com um bom resultado de venda), ou ainda, pelo dinheiro, fruto de seu trabalho, que tinha sido tomado por um menino maior... E aos poucos, em meio às verdades-mentiras que tinha inventado, Lumbiá ia se descobrindo realmente triste, tão triste, profundamente magoado, atormentado em seu peito-coração menino.


EVARISTO, Conceição. Lumbiá. In: EVARISTO, Conceição. Olhos d'água. 1. ed. 21. reimp. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 81-86.


— Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel. Vivo implicando com as novelas de minha mãe. Entretanto, sei que ela separa e separa com violência os dois mundos. Ela sabe que a verdade da telinha é a da ficção. Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro. Tenho fome, outra fome. Meu leite jorra para o alimento de meu filho e de filhos alheios. Quero contagiar de esperanças outras bocas. Lidinha e Biunda tiveram filhos também, meninas. Biunda tem o leite escasso, Lidinha trabalha o dia inteiro. Elas trazem as menininhas para eu alimentar. Entre Dorvi e os companheiros dele havia o pacto de não morrer. Eu sei que não morrer, nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas. Meu filho dorme. Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito...


EVARISTO, Conceição. A gente combinamos de não morrer. In: EVARISTO, Conceição. Olhos d'água. 1. ed. 21. reimp. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 99-109.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Citação de Do ser ao saber: relatos de experiência de pessoas que vive(ncia)ram a Graduando

 

 
 
A organização, a chamada para o envio de textos, a revisão e a feitura deste livro (e das duas últimas edições do periódico que lhe inspirou) aconteceram em meio a um acontecimento mundial que distanciou fisicamente as pessoas umas das outras, restando-nos a percepção segura do outro, durante muito tempo, por meio da internet, em transmissões de áudio e/ou vídeo por streaming, ou mesmo acesso a essas transmissões sempre que possível. Embora nem todos pudéssemos acessar tais serviços – muito menos com a estrutura e a qualidade necessárias –, fizemos isso e proporcionamos, por meio desses recursos, não raros, salvadores da sensação de solidão, o compartilhamento de nossos pensamentos, de nossa presença e de nossos gestos com a linguagem, principalmente com palavras escritas e faladas. Essas referências coletivas mais utilizadas de nossa linguagem uniram, unem e unirão pessoas em períodos de nossa história, sempre aglutinando parte do que fazemos em nossa geração e que, muitas vezes sem percebermos na medida de nosso próprio olhar, participam da formação de novas gerações e novas perspectivas nos espaços em que nos coube, em que nos cabe e em que nos caberá existir.
O livro que apresentamos é uma composição, como também o são os objetos que, em última análise, motivaram-no. É oportuno dizer “em última análise”, porque o livro marca os 10 anos de atuação da Graduando: entre o ser e o saber, revista acadêmica da graduação em Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na vida de pessoas que a foram incorporando às próprias leituras e nos espaços em que o periódico se fez presente, em textos escritos, em corpos vivos e em ideias propagadas. Ou seja, uma publicação para discentes, estudantes de graduação da área de Letras, completou uma década de publicação ininterrupta de artigos e resenhas, atividade rara quando da época de sua idealização e ainda pouco comum nos espaços e no tempo da publicação deste livro. Também em última análise, o material que corporifica o periódico é o resultado de horas de estudo, reflexão e escrita, momentos de pesquisa que exemplificam a experiência em destaque com a publicação: o exercício necessário do pensamento científico e acadêmico na formação do ser humano no universo da atuação sobre e para a própria vida.

CALIXTO, B. E. M. ; ALMEIDA, Danilo Cerqueira ; BARRETO, J. R. O. ; BATISTA, M. B. ; PEREIRA, V. S. Prefácio. In: CALIXTO, B. E. M. ; ALMEIDA, Danilo Cerqueira ; BARRETO, J. R. O. ; BATISTA, M. B. ; PEREIRA, V. S. Do ser ao saber: relatos de experiência de pessoas que vive(ncia)ram a Graduando. Nova Xavantina, 2021. p. [4-5]. Disponível em: https://www.editorapantanal.com.br/ebooks-capitulo.php?ebook_id=do-ser-ao-saber-relatos-de-experiencia-de-pessoas-que-vivenciaram-a-graduando&ebook_ano=2021&ebook_caps=1&ebook_org=1. Acesso em: 21 set. 2024. DOI: https://doi.org/10.46420/9786581460198.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Citação de Reflexões sobre a vaidade dos homens/ Carta sobre a fortuna, de Mathias Aires

 

 
De maneira incisiva, Mathias Aires começa a tecer a [sic] suas reflexões a partir do trecho bíblico extraído do Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas, ou seja, Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Ele vê no centro de suas Reflexões o pensamento do homem não como uma ponta solta da alma humana, mas como objeto que pertence e forma toda idéia do universo. Para o pensador, não há quem esteja imune à vaidade, ele se coloca entre os vaidosos ao ansiar pela publicação de sua própria obra. A vaidade é o fio condutor para que se possa entender todo o comportamento humano. O conceito está ligado diretamente a outros sentimentos, como orgulho, e alcança esferas de pensamento com a compreensão e a fantasia.
Na Carta Sobre [sic] a Fortuna, o autor se vê como um infortunado e responde, em forma de carta, a um desejo do Rei de que ele possua maior fortuna. Entretanto, a resposta incorpora uma longa explanação que confronta merecimento e fortuna. Para, por fim, concluir que ser afortunado na idade em que se encontrava o filósofo, nem seria verdadeira fortuna.

APRESENTAÇÃO. In: AIRES, Mathias. Reflexões sobre a vaidade dos homens/ Carta sobre a fortuna. São Paulo, SP: Escala, 2008. (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal). v. 21. p.12-13.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Citação de Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal


CAPÍTULO I

Seção I

Das Regras Deontológicas

I - A dignidade, o decoro, o zelo, a eficácia e a consciência dos princípios morais são primados maiores que devem nortear o servidor público, seja no exercício do cargo ou função, ou fora dele, já que refletirá o exercício da vocação do próprio poder estatal. Seus atos, comportamentos e atitudes serão direcionados para a preservação da honra e da tradição dos serviços públicos.

II - O servidor público não poderá jamais desprezar o elemento ético de sua conduta. Assim, não terá que decidir somente entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas principalmente entre o honesto e o desonesto, consoante as regras contidas no art. 37, caput, e § 4°, da Constituição Federal.

III - A moralidade da Administração Pública não se limita à distinção entre o bem e o mal, devendo ser acrescida da idéia de que o fim é sempre o bem comum. O equilíbrio entre a legalidade e a finalidade, na conduta do servidor público, é que poderá consolidar a moralidade do ato administrativo.

IV- A remuneração do servidor público é custeada pelos tributos pagos direta ou indiretamente por todos, até por ele próprio, e por isso se exige, como contrapartida, que a moralidade administrativa se integre no Direito, como elemento indissociável de sua aplicação e de sua finalidade, erigindo-se, como conseqüência, em fator de legalidade.

V - O trabalho desenvolvido pelo servidor público perante a comunidade deve ser entendido como acréscimo ao seu próprio bem-estar, já que, como cidadão, integrante da sociedade, o êxito desse trabalho pode ser considerado como seu maior patrimônio.

VI - A função pública deve ser tida como exercício profissional e, portanto, se integra na vida particular de cada servidor público. Assim, os fatos e atos verificados na conduta do dia-a-dia em sua vida privada poderão acrescer ou diminuir o seu bom conceito na vida funcional.

VII - Salvo os casos de segurança nacional, investigações policiais ou interesse superior do Estado e da
Administração Pública, a serem preservados em processo previamente declarado sigiloso, nos termos da lei, a publicidade de qualquer ato administrativo constitui requisito de eficácia e moralidade, ensejando sua omissão comprometimento ético contra o bem comum, imputável a quem a negar.

VIII - Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação.

IX - A cortesia, a boa vontade, o cuidado e o tempo dedicados ao serviço público caracterizam o esforço pela disciplina. Tratar mal uma pessoa que paga seus tributos direta ou indiretamente significa causar-lhe dano moral. Da mesma forma, causar dano a qualquer bem pertencente ao patrimônio público, deteriorando-o, por descuido ou má vontade, não constitui apenas uma ofensa ao equipamento e às instalações ou ao Estado, mas a todos os homens de boa vontade que dedicaram sua inteligência, seu tempo, suas esperanças e seus esforços para construí-los.

X - Deixar o servidor público qualquer pessoa à espera de solução que compete ao setor em que exerça suas funções, permitindo a formação de longas filas, ou qualquer outra espécie de atraso na prestação do serviço, não caracteriza apenas atitude contra a ética ou ato de desumanidade, mas principalmente grave dano moral aos usuários dos serviços públicos.

XI - O servidor deve prestar toda a sua atenção às ordens legais de seus superiores, velando atentamente por seu cumprimento, e, assim, evitando a conduta negligente. Os repetidos erros, o descaso e o acúmulo de desvios tornam-se, às vezes, difíceis de corrigir e caracterizam até mesmo imprudência no desempenho da função pública.

XII - Toda ausência injustificada do servidor de seu local de trabalho é fator de desmoralização do serviço
público, o que quase sempre conduz à desordem nas relações humanas.

XIII - O servidor que trabalha em harmonia com a estrutura organizacional, respeitando seus colegas e cada concidadão, colabora e de todos pode receber colaboração, pois sua atividade pública é a grande oportunidade para o crescimento e o engrandecimento da Nação.


BRASIL. Decreto nº 1.171, de 22 de junho de 1994. Aprova o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1171.htm. Acesso em: 20 ago. 2024.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Citação de A sabedoria da filosofia, de Nicola Abbagnano

 

A filosofia é conhecimento teórico puro, por isso tem como principal função traçar uma nítida linha demarcatória entre ideologia e ciência. A ideologia tem caráter prático, procura revestir a realidade com certos valores, transformá-la; mas é falsa a sua pretensão de representar a realidade como tal. A filosofia tem por meta debelar essa pretensão, estabelecendo uma nítida distinção entre aquilo que é ideológico e o que é científico. Mas, para obter esse resultado, deve atuar em um campo onde o científico e o ideológico estão misturados: e este é o campo das ciências atuais, "exploradas" (como dizia Althusser) pelas filosofias religiosas, idealistas e espiritualistas, que não tomam as ciências pelo que são mas usam a sua existência, seus limites e sua dificuldade de crescimento (batizada como "crises") como prova ou garantia de "valores extra-científicos", que mantêm de pé a sociedade de classes e os seus conflitos.

ABBAGNANO, Nicola. A sabedoria da filosofia: problemas da nossa vida. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. [Coleção Tempo e Religião]. p. 143.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Citação de Qual é a tua obra?, de Mario Sergio Cortella



Nenhum e nenhuma de nós é capaz de fazer tudo certo o tempo todo de todos os modos. Por isso, você só conhece alguém quando sabe que ele erra, e quando ele erra e não desiste. E dizem: ah, é por isso que a gente aprende com os erros? Não, a gente não aprende com os erros. A gente aprende com a correção dos erros. Se a gente aprendesse com os erros, o melhor método pedagógico seria essas bastante. (É bom lembrar que todo cogumelo é comestível. Alguns apenas uma vez).

CORTELLA, Mario Sergio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 24. ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 2015. p. 29-30.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Citação de Retrato de um artista quando jovem, de James Joyce


— Essa raça e esse país e essa vida fizeram de mim quem eu sou, disse. Vou me expressar da maneira como sou.
— Tente ser um de nós, repetiu Davin. No fundo você é um irlandês mas você tem orgulho demais para admitir.
— Meus antepassados jogaram fora essa língua e adotaram outra, respondeu Stephen. Permitiram que um punhado de forasteiros os subjugassem. Você acha que vou pagar com a minha vida e com a minha pessoa as dívidas que contraíram? Por quê?
— Pela nossa liberdade, disse Davin.
— Desde a época de Tone até à de Parnell, disse Stephen, não houve um único homem sincero e honrado que tenha sacrificado a vida e a juventude e as próprias afeições pelos irlandeses sem que mais tarde o tenham vendido ao inimigo ou renegado na hora de maior necessidade ou abandonado em favor de outro. E você ainda me convida para ser um de vocês. Vá para o inferno.
— Essas pessoas morreram por um ideal, Stevie, disse Davin. Acredite, o nosso dia vai chegar.
Stephen, entretido com os pensamentos, manteve-se em silêncio por alguns instantes.
— A alma nasce, afirmou de maneira vaga, em instantes como aqueles que contei para você. É um nascimento lento e obscuro, mais cercado de mistérios do que o nascimento do corpo. Quando a alma de um homem nasce nesse país é necessário prendê-la com redes para que não fuja. Você fala sobre nacionalidade, língua, religião. Se eu puder vou evitar essas redes.
Davin bateu as cinzas do cachimbo.
— Isso é profundo demais para mim, Stevie, disse por fim. Mas a pátria de um homem vem antes de qualquer coisa. A Irlanda acima de tudo, Stevie. Depois você pode ser poeta ou místico se quiser.
— Você sabe o que é a Irlanda?, perguntou Stephen com uma violência fria. A Irlanda é uma porca velha que come as próprias crias.


JOYCE, James. Retrato de um artista quando jovem. Tradução de Guilherme da Silva Braga. São Paulo: Mediafashion, 2016. (Coleção Folha. Grandes nomes da literatura, v. 8). p. 214-215.

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Citação de Setembro na Feira, de Juarez Bahia


As Melindrosas são mesmo a ufania da Queimadinha, depois do gado. Seu Ia de porta-estandarte, um aprendiz de tipógrafo, desde as damas ao grupo musical se encontram as criaturas mais diferenciadas, os vaqueiros, filhos de coronéis, comerciantes, empregados, mulatos, brancos, pretos — uma completa mistura sob a bandeira amarela, rosa e vermelha, com seu lema impregnado de filosofia: a alegria não tem cor, não tem raça nem religião.

Só o padre Amílcar do Carmo implicava com isso, pois — afirmava-o solenemente —, alegria pode não ter cor nem raça, mas tem religião, a alegria é católica, é cristã e ainda possui a sua moral. E quem, porventura, vier a contestar tal conceito estará sujeito a ir para o inferno, onde já se acha o Lucas do Limão, vulgarmente conhecido como Lucas da Feira, enforcado neste Campo do Gado.

BAHIA, Juarez. Setembro na Feira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 34.
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Citação de Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade, de Néstor Garcia Canclini


 

DA DESCRIÇÃO À EXPLICAÇÃO


Ao reduzir a hierarquia dos conceitos de identidade e heterogeneidade em benefício da hibridação, tiramos o suporte das políticas de homogeneização fundamentalista ou de simples reconhecimento (segregado) da "pluralidade de culturas". Cabe perguntar, então, para onde conduz a hibridação e se serve para reformular a pesquisa intercultural e o projeto de políticas culturais transnacionais e transétnicas, talvez globais.
 

Uma dificuldade para cumprir esses propósitos é que os estudos sobre hibridação costumam limitar-se a descrever misturas interculturais. Mal começamos a avançar, como parte da reconstrução sociocultural do
conceito, para dar-lhe poder explicativo: estudar as processos de hibridação situando-os em relações estruturais de causalidade. E dar-Ihe capacidade hermenêutica: Torná-lo útil para interpretar as relações de sentido que se reconstroem nas misturas.

Se queremos ir além de liberar a análise cultural de seus tropismos fundamentalistas identitários, deveremos situar a hibridação em outra rede de conceitos: por exemplo, contradição, mestiçagem, sincretismo, transculturação e crioulização. Além disso, é necessário vê-la em meio às ambivalências da industrialização e da massificação globalizada dos processos simbólicos e dos conflitos de poder que suscitam.

 

CANCLINI, Néstor Garcia. Introdução à edição de 2001: as culturas híbridas em tempos de globalização. In: CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. Tradução da introdução de Gênese Trindade. 4. ed. 4. reimp. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008. p. XXIV-XXV [XVII-XLIII].


quarta-feira, 17 de julho de 2024

Citação de A noite escura e mais eu, de Lygia Fagundes Telles

 

COMEÇO POR ME IDENTIFICAR, eu sou um cachorro. Que não vai responder a nenhuma pergunta, mesmo porque não sei as respostas, sou um cachorro e basta. Tantas raças vieram desaguar em mim como afluentes de pequenos rios se perdendo e se encontrando no tempo e no acaso, mas qual dessas raças acabou por vigorar na soma, isto eu não sei dizer. Melhor assim. Fico na superfície sem indagar da raiz, agora não. Aqui onde estou posso passar quase despercebido em meio de outros que também levam os crachás dependurados no pescoço como rótulos das garrafas de uísque. Que ninguém lê com atenção, estão todos muito ocupados para se interessar de verdade por um próximo que é único e múltiplo apesar da identidade.


TELLES, Lygia Fagundes. O crachá nos dentes. In: TELLES, Lygia Fagundes. A noite mais escura e mais eu. 4. ed.  Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1998. p. 51 [49-54].

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Citação de A política explicada aos nossos filhos, de Myriam Revault D'Allones


 

Desde a mais tenra idade e, sobretudo, desde que entram na escola, vocês tomam conhecimento da vida em sociedade e das suas regras. Num certo sentido, vocês aprendem , sem o saber, as condições da política, que significa o fato de viver e agir em conjunto. Vocês deparam com situações que os preparam para enfrentar questões "políticas": o contato com as diferenças, as injustiças, as desigualdades, a tomada de responsabilidade. Vocês experimentam o que é uma instituição - a escola, o colégio - em que a aprendizagem e a difusão do saber não são estranhas às realidades sociais e políticas. Vocês também confrontam a realidade das discordâncias e o modo pelo qual podem iniciar uma ação coletiva. E compreendem que conversar é bom, que as discussões  não conduzem apenas à violência ou à guerra, mas que às vezes elas permitem evitá-las, quando expomos nossas posições em público, por meio de argumentos e demonstrando respeito pelo outro.

Contudo, vocês também puderam constatar - pois todos repetem isso sem parar - que a política se tornou hoje um objeto de desconfiança, que ela é criticada e desprezada: por exemplo, a política parece incapaz de impedir o aumento do desemprego. Quanto aos políticos, não paramos de criticá-los, e eles frequentemente nos passam uma imagem muito negativa. Existe aí algo muito desconcertante: como uma atividade tão fundamental, que diz respeito à nossa vida em comum, pode causar tanta insatisfação e decepção?

D'ALLONES,  Myriam Revault. A política explicada aos nossos filhos. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: Editora Unesp, 2018. p. 10-11.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Citação de Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade, de bell hooks

 

A escola mudou radicalmente com a interação social. O zelo messiânico de transformar nossa mente e o nosso ser, que caracterizava os professores e suas práticas pedagógicas nas escolas exclusivamente negras, era coisa do passado. De repente, o conhecimento passou a se resumir à pura informação. Não tinha relação com o modo de viver e de se comportar. Já não tinha ligação com a luta antirracista. Levados de ônibus a escolas de brancos, logo aprendemos que o que se esperava de nós era a obediência, não o desejo ardente de aprender. A excessiva ânsia de aprender era facilmente entendida como uma ameaça à autoridade branca.

Quando entramos em escolas brancas, racistas e dessegregadas, deixamos para trás um mundo onde professores acreditavam que precisavam de um compromisso político para educar corretamente as crianças negras. De repente, passamos a ter aula com professores brancos cujas lições reforçavam os estereótipos racistas. Para as crianças negras, a educação já não tinha a ver com a prática de liberdade. Quando percebi isso, perdi o gosto pela escola. A sala de aula já não era um lugar de prazer ou de êxtase. A escola ainda era um ambiente político, pois éramos obrigados a enfrentar a todo momento os pressupostos racistas dos brancos, de que éramos geneticamente inferiores, menos capacitados que os colegas, até incapazes de aprender. Apesar disso, essa política já não era contra-hegemônica. O tempo todo, estávamos somente respondendo e reagindo aos brancos.

Essa transição das queridas escolas exclusivamente negras para escolas brancas onde os alunos negros eram sempre vistos como penetras, como gente que não deveria estar ali, me ensinou a diferença entre a educação como prática de liberdade e a educação que só trabalha para reforçar a dominação.


HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. p. 11-12.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Citação de História do Futuro, de Padre Antônio Vieira

 

Hão-se de ler nesta História, para exaltação da Fé, para triunfo da Igreja, para glória de Cristo, para felicidade e paz universal do Mundo, altos conselhos, animosas resoluções, religiosas empresas, heroicas façanhas, maravilhosas vitórias, portentosas conquistas, estranhas e espantosas mudanças de estados, de tempos, de gentes, de costumes, de governos, de leis; mas leis novas, governos novos, costumes novos, gentes novas, tempos novos, estados novos, conselhos e resoluções novas, empresas e façanhas novas, conquistas, vitórias, paz, triunfos e felicidades novas; e não só novas, porque são futuras, mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. Ouvirá o Mundo o que nunca viu, lerá o que nunca ouviu, admirará o que nunca leu, e pasmará assombrado do que nunca imaginou. E se as histórias daqueles escritores, sendo de cousas menores antigas e passadas, se leram sempre com gosto, e depois de sabidas se tornaram a ler sem fastio, confiança nos fica para esperar que não será ingrato aos leitores este nosso trabalho, e que será tão deleitosa ao gosto e ao juízo a História do Futuro, quanto é estranho ao papel o assunto e nome dela.

VIEIRA, Pe. Antônio. História do futuro. [S. l.: s. n., 201-?]. E-book Kindle. v. 1. Local. 60. Livro de domínio público.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Citação de Tratado da reforma do entendimento, de Spinoza

 


Com as honras, na verdade, a mente se distrai muito mais ainda, pois se supõe sempre que sejam um bem em si mesmas e como o fim último, para o qual tudo converge. Além disso, nelas não ocorre, como no prazer sensual, arrependimento; mas quanto mais delas se possui, mais a alegria aumenta e consequentemente somos cada vez mais incitados a incrementá-las. Se, no entanto, ficamos em algum caso frustrados em nossa expectativa, então sobrevém uma profunda tristeza. Por fim, as honrarias constituem um grande impedimento, porque, para consegui-las, deve-se necessariamente dirigir a própria vida segundo a opinião dos homens, ou seja, fugindo dos que os homens fogem e procurando o que eles procuram.

SPINOZA, Baruch (Bento). Tratado da reforma do entendimento. Tradução de Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2007. p. 21. Texto integral bilíngue: latim-português.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Citação de A grande transformação (...), de Leonardo Boff

 


Se quisermos construir um mundo humano melhor precisamos afirmar valores que valem por si mesmos e desenvolver uma sabedoria que submeta a economia à política (a serviço do bem-estar dos seres humanos em sociedade) e a política à ética (a realização de valores). Esta estabelece os fins nobres e os meios adequados para uma felicidade possível aos humanos. Nós, na verdade, vivemos no mundo dos meios sem termos definido os fins que dão sentido à história. Esse fato é uma das fontes maiores de perpetuação da crise generalizada que assola a humanidade e sem vislumbrarmos uma saída imediata.

BOFF, Leonardo. A grande transformação: na economia, na política e na ecologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. p. 78.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Citação de A Política, de Aristóteles

 

Eis porque toda cidade se integra na natureza, pois foi a própria natureza que formou as primeiras sociedades: ora a natureza era o fim dessas sociedades; e a natureza é o verdadeiro fim de todas as coisas. Dizemos, pois, dos diferentes seres, que eles se acham integrados na natureza quando tenham atingido todo o desenvolvimento que lhe é peculiar. Além disso, o fim para o qual cada ser foi criado, é de cada um bastar-se a si mesmo; ora, a condição de se bastar a si próprio é o ideal de todo indivíduom [sic], e o que de melhor pode existir para ele.

9. É evidente, pois, que a cidade faz parte das coisas da natureza, que o homem é naturalmente um animal político, destinado a viver em sociedade, e que aquele que, por instinto, e não porque qualquer circunstância o inibe, deixa de fazer parte de uma cidade, é um ser vil ou superior ao homem.

 

ARISTÓTELES. A Política. Tradução de Nestor Silveira Chaves. Introdução de Ivan Lins. 15. ed. São Paulo, SP: Escala, [20--]. (Coleção Mestres e Pensadores). p. 13-14.