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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Citação de Do ser ao saber: relatos de experiência de pessoas que vive(ncia)ram a Graduando

 

 
 
A organização, a chamada para o envio de textos, a revisão e a feitura deste livro (e das duas últimas edições do periódico que lhe inspirou) aconteceram em meio a um acontecimento mundial que distanciou fisicamente as pessoas umas das outras, restando-nos a percepção segura do outro, durante muito tempo, por meio da internet, em transmissões de áudio e/ou vídeo por streaming, ou mesmo acesso a essas transmissões sempre que possível. Embora nem todos pudéssemos acessar tais serviços – muito menos com a estrutura e a qualidade necessárias –, fizemos isso e proporcionamos, por meio desses recursos, não raros, salvadores da sensação de solidão, o compartilhamento de nossos pensamentos, de nossa presença e de nossos gestos com a linguagem, principalmente com palavras escritas e faladas. Essas referências coletivas mais utilizadas de nossa linguagem uniram, unem e unirão pessoas em períodos de nossa história, sempre aglutinando parte do que fazemos em nossa geração e que, muitas vezes sem percebermos na medida de nosso próprio olhar, participam da formação de novas gerações e novas perspectivas nos espaços em que nos coube, em que nos cabe e em que nos caberá existir.
O livro que apresentamos é uma composição, como também o são os objetos que, em última análise, motivaram-no. É oportuno dizer “em última análise”, porque o livro marca os 10 anos de atuação da Graduando: entre o ser e o saber, revista acadêmica da graduação em Letras da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na vida de pessoas que a foram incorporando às próprias leituras e nos espaços em que o periódico se fez presente, em textos escritos, em corpos vivos e em ideias propagadas. Ou seja, uma publicação para discentes, estudantes de graduação da área de Letras, completou uma década de publicação ininterrupta de artigos e resenhas, atividade rara quando da época de sua idealização e ainda pouco comum nos espaços e no tempo da publicação deste livro. Também em última análise, o material que corporifica o periódico é o resultado de horas de estudo, reflexão e escrita, momentos de pesquisa que exemplificam a experiência em destaque com a publicação: o exercício necessário do pensamento científico e acadêmico na formação do ser humano no universo da atuação sobre e para a própria vida.

CALIXTO, B. E. M. ; ALMEIDA, Danilo Cerqueira ; BARRETO, J. R. O. ; BATISTA, M. B. ; PEREIRA, V. S. Prefácio. In: CALIXTO, B. E. M. ; ALMEIDA, Danilo Cerqueira ; BARRETO, J. R. O. ; BATISTA, M. B. ; PEREIRA, V. S. Do ser ao saber: relatos de experiência de pessoas que vive(ncia)ram a Graduando. Nova Xavantina, 2021. p. [4-5]. Disponível em: https://www.editorapantanal.com.br/ebooks-capitulo.php?ebook_id=do-ser-ao-saber-relatos-de-experiencia-de-pessoas-que-vivenciaram-a-graduando&ebook_ano=2021&ebook_caps=1&ebook_org=1. Acesso em: 21 set. 2024. DOI: https://doi.org/10.46420/9786581460198.

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Citação de Teoria da comunicação literária, de Eduardo Portella


Para que o homem [e outros gêneros do ser humano] entre numa relação em uma relação criadora com a realidade é preciso que este relacionamento seja um ato de consciência. E nós diremos porque. É pela simples razão de que não há realidade sem consciência de realidade. A realidade faz e é feita pela consciência. Seremos mais exatos, aliás, se dissermos que a consciência é a própria realidade concentrada no seu princípio de unidade. Mas essa premissa teórica não tem sido tranqüilamente [sic] aeita ou compreendida. Por que? Porque as questões, por parecerem simples, por esconderem a sua complexidade, são tratadas simplificadamente, numa linha de formulação que vai da ingenuidade ao equívoco, passando algumas vezes pela má fé.


PORTELLA, Eduardo. O realismo como estrutura e as ameaças de setorização. In: PORTELLA, Eduardo. Teoria da comunicação literária. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro, 1973. p. 61.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Citação de Mevitevendo, de Artur da Távola (Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros)

 

 
 
Deus é sempre um pouco mais,. Mesmo no menos. Ele é minha procura, nova, a cada encontro. É meu fluxo de vida e não a minha vida. É minha amargura tanto quanto minha alegria, porque está na dimensão do que não tenho mas sei que existe porque Dele me fala o mistério: o doce mistério, da amarga mas perfumada trajetória, átomo da eternidade, fagulha de esperança, a que chamamos vida e atribuímos tanto, quando apenas é um espasmo da carne em forma de ser e susto. E o que é isso para o Absoluto?

TÁVOLA, Artur da. Muito pessoal. In: TÁVOLA, Artur da. Mevitevendo. 7. ed. Rio de Janeiro: PGL-Comunicação, 1981. p. 23 [22-23].

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Citação de A Gaia Ciência, de Nietzsche

 


 

A meditação perdeu toda a dignidade de sua forma; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflete e não se poderia continuar a suportar um homem sábio ao velho estilo. Pensamos depressa, pensamos pelo caminho, em plena marcha, no meio de negócios de toda espécie, mesmo quando se trate de pensar nas coisas mais sérias; basta-nos apenas um pouco de preparação e até mesmo pouco silêncio: - é  como se nossa cabeça contivesse uma máquina em movimento constante, que continuasse trabalhando mesmo nas condições mais impróprias para o pensamento. Outrora, quando alguém queria pensar - era realmente uma coisa excepcional!; era visto tornar-se mais calmo e preparar sua idéia [sic]: contraía o rosto como se fosse para uma oração e parava de caminhar; alguns ficavam até mesmo imóveis durante horas - apoiados numa só ou nas duas pernas - na rua, quando o pensamento "vinha". Isso era chamado "pensar".  

Nietzsche, Friedrich. A gaia ciência. Tradução de Antonio Carlos Braga. São Paulo: Escala, 2006. p. 44-45.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Citação de Eclesiastes, da Bíblia

 

Eclesiástes 1 


1 Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém.
2 Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.
3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
4 Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre.
5 O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce.
6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro vai para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira, e retoma os seus circuitos.
7 Todos os ribeiros vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios correm, para ali continuam a correr.
8 Todas as coisas estão cheias de cansaço; ninguém o pode exprimir: os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
9 O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol.
10 Há alguma coisa de que se possa dizer: isto é novo? ela já existiu nos séculos que foram antes de nós.
11 Já não há lembrança das gerações passadas; nem das gerações futuras haverá lembrança entre os que virão depois delas.
12 Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém.
13 E apliquei o meu coração a inquirir e a investigar com sabedoria a respeito de tudo quanto se faz debaixo do céu; essa enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens para nela se exercitarem.
14 Atentei para todas as obras que se e fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão.
15 O que é torto não se pode endireitar; o que falta não se pode enumerar.
16 Falei comigo mesmo, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; na verdade, tenho tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento.
17 E apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão.
18 Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.

BÍBLIA, A. T. Eclesiástes. In: A Bíblia Sagrada: Almeida atualizada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Abbotsford, CAN: Zeiset, 2020. E-book. p. 1379-1380. Ec 1: 1-18.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Citação de Reflexões sobre a vaidade dos homens/ Carta sobre a fortuna, de Mathias Aires

 

 
De maneira incisiva, Mathias Aires começa a tecer a [sic] suas reflexões a partir do trecho bíblico extraído do Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas, ou seja, Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Ele vê no centro de suas Reflexões o pensamento do homem não como uma ponta solta da alma humana, mas como objeto que pertence e forma toda idéia do universo. Para o pensador, não há quem esteja imune à vaidade, ele se coloca entre os vaidosos ao ansiar pela publicação de sua própria obra. A vaidade é o fio condutor para que se possa entender todo o comportamento humano. O conceito está ligado diretamente a outros sentimentos, como orgulho, e alcança esferas de pensamento com a compreensão e a fantasia.
Na Carta Sobre [sic] a Fortuna, o autor se vê como um infortunado e responde, em forma de carta, a um desejo do Rei de que ele possua maior fortuna. Entretanto, a resposta incorpora uma longa explanação que confronta merecimento e fortuna. Para, por fim, concluir que ser afortunado na idade em que se encontrava o filósofo, nem seria verdadeira fortuna.

APRESENTAÇÃO. In: AIRES, Mathias. Reflexões sobre a vaidade dos homens/ Carta sobre a fortuna. São Paulo, SP: Escala, 2008. (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal). v. 21. p.12-13.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Citação de Contra os acadêmicos, de Santo Agostinho

 
 
O que nas coisas chamamos de acaso nada mais é que algo cuja razão e causa é secreta; e nada de conveniente ou de inconveniente acontece à parte que não diga respeito e não atinja também ao todo. E a filosofia, à qual estou te convidando, promete demonstrar aos que a amam verdadeiramente a visão das doutrinas mais fecundas, proferidas pelos oráculos, e extremamente distanciadas do intelecto dos profanos.
 
 
AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018. (Vozes de Bolso). p. 14.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Citação de A sabedoria da filosofia, de Nicola Abbagnano

 

A filosofia é conhecimento teórico puro, por isso tem como principal função traçar uma nítida linha demarcatória entre ideologia e ciência. A ideologia tem caráter prático, procura revestir a realidade com certos valores, transformá-la; mas é falsa a sua pretensão de representar a realidade como tal. A filosofia tem por meta debelar essa pretensão, estabelecendo uma nítida distinção entre aquilo que é ideológico e o que é científico. Mas, para obter esse resultado, deve atuar em um campo onde o científico e o ideológico estão misturados: e este é o campo das ciências atuais, "exploradas" (como dizia Althusser) pelas filosofias religiosas, idealistas e espiritualistas, que não tomam as ciências pelo que são mas usam a sua existência, seus limites e sua dificuldade de crescimento (batizada como "crises") como prova ou garantia de "valores extra-científicos", que mantêm de pé a sociedade de classes e os seus conflitos.

ABBAGNANO, Nicola. A sabedoria da filosofia: problemas da nossa vida. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. [Coleção Tempo e Religião]. p. 143.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Citação de Qual é a tua obra?, de Mario Sergio Cortella



Nenhum e nenhuma de nós é capaz de fazer tudo certo o tempo todo de todos os modos. Por isso, você só conhece alguém quando sabe que ele erra, e quando ele erra e não desiste. E dizem: ah, é por isso que a gente aprende com os erros? Não, a gente não aprende com os erros. A gente aprende com a correção dos erros. Se a gente aprendesse com os erros, o melhor método pedagógico seria essas bastante. (É bom lembrar que todo cogumelo é comestível. Alguns apenas uma vez).

CORTELLA, Mario Sergio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. 24. ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 2015. p. 29-30.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Citação de A política explicada aos nossos filhos, de Myriam Revault D'Allones


 

Desde a mais tenra idade e, sobretudo, desde que entram na escola, vocês tomam conhecimento da vida em sociedade e das suas regras. Num certo sentido, vocês aprendem , sem o saber, as condições da política, que significa o fato de viver e agir em conjunto. Vocês deparam com situações que os preparam para enfrentar questões "políticas": o contato com as diferenças, as injustiças, as desigualdades, a tomada de responsabilidade. Vocês experimentam o que é uma instituição - a escola, o colégio - em que a aprendizagem e a difusão do saber não são estranhas às realidades sociais e políticas. Vocês também confrontam a realidade das discordâncias e o modo pelo qual podem iniciar uma ação coletiva. E compreendem que conversar é bom, que as discussões  não conduzem apenas à violência ou à guerra, mas que às vezes elas permitem evitá-las, quando expomos nossas posições em público, por meio de argumentos e demonstrando respeito pelo outro.

Contudo, vocês também puderam constatar - pois todos repetem isso sem parar - que a política se tornou hoje um objeto de desconfiança, que ela é criticada e desprezada: por exemplo, a política parece incapaz de impedir o aumento do desemprego. Quanto aos políticos, não paramos de criticá-los, e eles frequentemente nos passam uma imagem muito negativa. Existe aí algo muito desconcertante: como uma atividade tão fundamental, que diz respeito à nossa vida em comum, pode causar tanta insatisfação e decepção?

D'ALLONES,  Myriam Revault. A política explicada aos nossos filhos. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: Editora Unesp, 2018. p. 10-11.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Citação de Estupros à razão e outras crônicas da vida vinagre, de Jorge de Souza Araujo

 


Por vezes me olho num imponderável espelho e me interrogo: sois parvo? Sim, porque não consigo ficar mudo e imóvel ante as fortunas da inteligência parindo siameses de mestres-salas e porta-bandeiras da idiotia. Em outros termos, contaminado pelos esgares da panaceia nacional, não alcanço comungar com a paralisia confortável sobre braços e cabeças, em mim mesmo identificando a febre da inquietude e reconhecendo que o imobilismo reativo gera capitulações e estas representam o mais rotundo dos fracassos humanos: a renúncia passiva a lutar pelos justos valores da vida digna.

ARAUJO, Jorge de Souza. Lei Seca cheia de bolor. In: ARAUJO, Jorge de Souza. Estupros à razão e outras crônicas da vida vinagre. Itabuna: Via Literarum, 2012. p. 77 [77-79].

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Citação de Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar

 
Mas mamãe nunca pediu que a levassem até o telefone para falar pessoalmente com tia Clélia. Toda manhã perguntava se tinham recebido notícias da quinta e, depois, voltava ao seu silêncio, onde o tempo parecia contar-se por doses de remédios ou xícaras de tília. Não lhe desagradava que tio Roque chegasse com La Razón para ler as últimas notícias do conflito com o Brasil, mas também não parecia preocupar-se com o fato de o jornaleiro chegar atrasado ou tio Roque se distrair mais que de costume com um problema de xadrez. Rosa e Pepa chegaram a convencer-se que mamãe já não se importava que lhe lessem ou não as notícias, ou telefonassem para a quinta, ou trouxessem carta de Alejandro. Mas não se podia ter certeza porque, às vezes, levantava a cabeça e as olhava com o olhar profundo de sempre, no que não havia nenhuma mudança, nenhuma aceitação. A rotina abrangia a todos e, para Rosa, telefonar para um buraco preto na extremidade do fio era tão simples e cotidiano como para tio Roque continuar lendo falsos telegramas sobre um fundo de anúncios de leilões ou notícias de futebol, ou para Carlos entrar com as particularidades de sua visita à quinta de Olavarria e os embrulhos de frutas que Manolita e tia Clélia mandavam. Nem sequer durante os últimos meses de vida de mamãe os hábitos mudaram, embora já tivessem pouca importância. O Dr. Bonifaz disse-lhes que felizmente mamãe nada sofreria e se apagaria sem que notasse. Mas mamãe manteve-se lúcida até o fim, quando já os filhos a rodeavam sem poder fingir o que sentiam.
– Como vocês foram bons comigo – disse mamãe. – Esse trabalho todo que vocês tiveram para que eu não sofresse.
...............................................................................................
Três dias depois do enterro chegou a última carta de Alejandro, na qual, como sempre, perguntava pela saúde de mamãe e de tia Clélia. Rosa, que a recebera, abriu-a começou a lê-la sem pensar e, quando levantou os olhos, porque de repente as lágrimas a cegavam, percebeu que enquanto lia a carta estivera pensando de que forma haveriam de dar a Alejandro a notícia da morte de mamãe.
 
CORTÁZAR, Julio. A saúde dos doentes. In: Todos os fogos o fogo. Tradução de Gloria Rodrigues. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011. p. 53-54 [37-54].

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Citação de Tratado da reforma do entendimento, de Spinoza

 


Com as honras, na verdade, a mente se distrai muito mais ainda, pois se supõe sempre que sejam um bem em si mesmas e como o fim último, para o qual tudo converge. Além disso, nelas não ocorre, como no prazer sensual, arrependimento; mas quanto mais delas se possui, mais a alegria aumenta e consequentemente somos cada vez mais incitados a incrementá-las. Se, no entanto, ficamos em algum caso frustrados em nossa expectativa, então sobrevém uma profunda tristeza. Por fim, as honrarias constituem um grande impedimento, porque, para consegui-las, deve-se necessariamente dirigir a própria vida segundo a opinião dos homens, ou seja, fugindo dos que os homens fogem e procurando o que eles procuram.

SPINOZA, Baruch (Bento). Tratado da reforma do entendimento. Tradução de Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2007. p. 21. Texto integral bilíngue: latim-português.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Citação de Juventude, de Joseph Conrad

 

 

"Os ratos até então tinham sido uma verdadeira praga. Destruíram velas, consumiam as provisões do que a tripulação inteira, compartilhavam amigavelmente das nossas camas e dos nossos perigos. No momento em que o navio estava em condições de navegar em alto-mar, resolveram abandoná-lo, Chamei Mahon para apreciar o espetáculo. Ratos e ratos iam surgindo na amurada, atiravam um último olhar por cima dos ombros e saltavam, com um ruído seco, para o mergulho no pontão vazio. Tentamos contá-los, mas logo perdemos a conta. Mahon falou: 'Bem... não me fale na inteligência dos ratos. Deviam ter saído antes, quando por um triz não fomos a pique. Aí está a prova de como é estúpida a superstição sobre os ratos. Deixaram um bom navio por um velho batelão caindo de podre, onde não há nada para comer... Idiotas! Não acredito que saibam o que é bom e seguro para eles, como eu e você não sabemos'.

"Depois de prolongarmos um pouco mais a conversa, concordamos que a sabedoria dos ratos era grandemente superestimada e que, na verdade, não era maior do que a dos homens.

CONRAD, Joseph. Juventude. Tradução de Flávio Moreira da Costa. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 36-37.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Citação de Andar a pé, de David Henry Thoreau

 


Viver muito ao ar livre, no sol e no vento, não gera, de modo algum, certa aspereza de caráter, mas sim uma cutícula mais espessa que cobre as mais belas qualidades da nossa natureza, como no rosto e nas mãos, ou como um rigoroso trabalho manual retira às mãos um pouco da delicadeza de tato. Portanto, permanecer em casa, pode, por seu turno, produzir um aveludamento e lisura, para não dizer finura da pele, acompanhado de uma sensibilidade mais apurada a certas impressões. Talvez fôssemos mais susceptíveis a algumas influências importantes para o nosso desenvolvimento intelectual e moral se o sol nos tivesse queimado menos e menos nos tivesse batido o vento. E, com efeito, é conveniente tratar adequadamente a pele grossa e a pele fina. Mas parece-me que se trata de uma crosta que se remove com a maior facilidade - que o remédio natural encontra-se na relação que existe entre a noite e o dia, o inverno e o verão, o pensamento e a experiência. Quando maior a dose de ar e de luz solar em nossos pensamentos, tanto melhor. As mãos calosas do operário mais condizem com os tecidos finos do respeito próprio e do heroísmo, cujo toque emociona o coração, do que os dedos lãnguidos da ociosidade. É pura sentimentalidade a de quem se deita de dia e se julga alvo, isento do breu e do calor da experiência.

THOREAU, Henry David. Andar a pé. Tradução de Sarmento de Beires e José Duarte. [S. l.]: eBooksBrasil.com, 2003. E-book. local. 52-56 [de 407]. Digitalização de livro em papel: THOREAU, Henry David. Andar a pé. M. Jackson Inc.: Rio de Janeiro, 1950. Ensaístas Americanos. Clássicos Jackson. v. 33.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Citação de O tocador de tuba, de Chico Anísio

 

Zé Beiçudo, desse modo, era artista e herói. Êmulo da meninada que lhe obedecia mais do que aos pais, haja vista que, quando cada um punha obstáculo a tomar óleo de rícino, era a ele que os pais recorriam.

- Zé Beiçudo, dê um pulinho lá em casa, que Cadu não quer tomar o óleo de rícino de jeito nem qualidade.

E lá ia Zé Beiçudo ser agora diplomata, conversar uma conversinha, levando sob o braço um caminhão de madeira, que viria a ser troféu depois do óleo engolido.

- Tome seu purgantezinho que eu lhe dou um caminhão.

- Não quero.

- Tome. Não é ruim, não. Quer ver?

E ele mesmo tomava uma colher, para exemplo. Escondia a cara feia, o menino acabava se purgando sem reclamar. O pai, agradecido, ousava oferecer um dinheirinho em troca de tanta bondade. Zé Beiçudo, gentilmente, dispensava a gorjeta.

- Precisa, não. Fiz isso por Cadu que anda mesmo amarelo, carente de expulsar os vermes.

Tinha feito pelo bem de Cadu, por que receber dinheiro? Voltava, depois, pra casa, correndo com as mãos no ventre.

- Creusa, prepara o penico, que eu hoje dei o exemplo.


ANÍSIO, Chico. O Tocador de Tuba. In: ANÍSIO, Chico. O tocador de tuba. Prefácio de Millôr Fernandes. Rio de Janeiro, Rocco, 1977. p. 54-55 [52-64].

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Citação de Evangelho segundo Marcos 9, 30-50, da Bíblia


30 Depois, tendo partido dali, passavam pela Galiléia, e ele não queria que ninguém o soubesse; 

31 porque ensinava a seus discípulos, e lhes dizia: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, que o matarão; e morto ele, depois de três dias ressurgirá. 

32 Mas eles não entendiam esta palavra, e temiam interrogá-lo. 

33 Chegaram a Cafarnaum. E estando ele em casa, perguntou-lhes: Que estáveis discutindo pelo caminho?

34 Mas eles se calaram, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles era o maior. 

35 E ele, sentando-se, chamou os doze e lhes disse: se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos. 

36 Então tomou uma criança, pô-la no meio deles e, abraçando-a, disse-lhes: 

37 Qualquer que em meu nome receber uma destas crianças, a mim me recebe; e qualquer que me recebe a mim, recebe não a mim mas àquele que me enviou. 

38 Disse-lhe João: Mestre, vimos um homem que em teu nome expulsava demônios, e nós lho proibimos, porque não nos seguia. 

39 Jesus, porém, respondeu: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e possa logo depois falar mal de mim; 

40 pois quem não é contra nós, é por nós. 

41 Porquanto qualquer que vos der a beber um copo de água em meu nome, porque sois de Cristo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa. 

42 Mas qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e que fosse lançado no mar. 

43 E se a tua mão te fizer tropeçar, corta-a; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. 

44 [onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.] 

45 Ou, se o teu pé te fizer tropeçar, corta-o; melhor é entrares coxo na vida, do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno. 

46 [onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.] 

47 Ou, se o teu olho te fizer tropeçar, lança-o fora; melhor é entrares no reino de Deus com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno. 

48 onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga. 

49 Porque cada um será salgado com fogo. 

50 Bom é o sal; mas, se o sal se tornar insípido, com que o haveis de temperar? Tende sal em vós mesmos, e guardai a paz uns com os outros.

BÍBLIA, N. T. Evangelho segundo Marcos. In: A Bíblia Sagrada: Almeida atualizada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Abbotsford, CAN: Zeiset, 2020. E-book. p. 2010-2012. Mc 9: 30-50.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Citação de 1 Timóteo, da Bíblia


1 Mas o Espírito expressamente diz que em tempos posteriores alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios,

2 pela hipocrisia de homens que falam mentiras e têm a sua própria consciência cauterizada,

3 proibindo o casamento, e ordenando a abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos que são fiéis e que conhecem bem a verdade;

4 pois todas as coisas criadas por Deus são boas, e nada deve ser rejeitado se é recebido com ações de graças;

5 porque pela palavra de Deus e pela oração são santificadas.

6 Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, nutrido pelas palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido;

7 mas rejeita as fábulas profanas e de velhas. Exercita-te a ti mesmo na piedade.

8 Pois o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, visto que tem a promessa da vida presente e da que há de vir.

9 Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação.

10 Pois para isto é que trabalhamos e lutamos, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem.

11 Manda estas coisas e ensina-as.

12 Ninguém despreze a tua mocidade, mas sê um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza.

13 até que eu vá, aplica-te à leitura, à exortação, e ao ensino. 

14 Não negligencies o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbítero.

15 Ocupa-te destas coisas, dedica-te inteiramente a elas, para que o teu progresso seja manifesto a todos. 

16 Tem cuidado de ti mesmo e do teu ensino; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.

BÍBLIA, N. T. 1 Timóteo. In: A Bíblia Sagrada: Almeida atualizada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Abbotsford, CAN: Zeiset, 2020. E-book. p. 2393-2394. 1 Tm 4.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Citação de Um artista da fome, de Franz Kafka

 

Os mais belos cartazes chegaram a ficar sujos e ilegíveis, foram arrancados e a ninguém ocorreu renová-los. A tabuleta com o número dos dias transcorridos desde que havia começado o jejum, que nos primeiros tempos era cuidadosamente mudado todos os dias, há muito tempo era a mesma, pois ao fim de algumas semanas esse pequeno trabalho tinha-se tornado desagradável para o pessoal; e desse modo o jejuador continuou jejuando, como sempre havia desejado, e o fazia sem incômodo, tal como em outra época havia anunciado; mas ninguém contava mais o tempo que passava; ninguém, nem mesmo o próprio jejuador, sabia quantos dias de jejum havia alcançado, e seu coração enchia-se de melancolia. E assim, certa vez, durante aquele tempo, um ocioso se deteve diante de sua jaula e se riu do velho número de dias consignado na tabuleta, parecendo-lhe impossível, e falou de impostura e velhacaria; foi essa a mais estúpida mentira que puderam inventar a indiferença e a malícia inatas, pois não era o jejuador quem enganava, ele trabalhava honradamente, mas era o mundo quem enganava quanto aos seus merecimentos.

KAFKA,  Franz. Um artista da fome. In: KAFKA,  Franz. A metamorfose e Um artista da fome. Tradução de Torrieri Guimarães. Texto sobre autor e obra de Marques Rebelo. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1998. p. 75-89. p. 87-88.

 

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Citação de Ensaios, de Montaigne


Como quer que seja e quaisquer que sejam as inépcias que me passam pela mente, não as esconderei, como não esconderia meu relato se em vez de jovem e belo me representasse calvo e grisalho como o sou, em verdade. Exponho aqui meus sentimentos e opiniões, dou-os como os concebo e não como os concebem os outros; meu único objetivo é analisar a mim mesmo e o resultado dessa análise pode, amanhã, ser bem diferente do de hoje, se novas experiências me mudarem. Não tenho autoridade para impor minha maneira de ver, nem o desejo, sabendo-me demasiado mal instruído para instruir os outros.

MONTAIGNE, Michel de. Da educação das crianças. In: MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. 4. ed. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1987. vol. 1, p. 76.