domingo, 10 de abril de 2011



Um dia, estive a declarar a independência do formigueiro!
É mesmo. Disse abruptamente que iria libertar todos aqueles animaiszinhos do fundo da terra. Nunca entendi o porquê de morarem  ali, recusando a luz solar, essa que proprorciona o milagre do crescimento dos vegatais, bronzeia a pele das pessoas e, dentre outras coisas, aquece uma superfície, móvel, para nossos passos.
Via-as com tamanha complacência que estive, por muito tempo, decidido a trazê-las à superfície. Ficava tão frustrado ao ver algumas espécies alíferas voando, insones, para uma realidade próxima: perda brutal e impiedosa de seus instrumentos de sonho e uma morte insondável, pois só as via vivas ou mortas. Talvez isso não seja imperdível para os apreciadores de filmes de terror e programas expositores das práticas cotidianas no mundo selvagem.
Sempre duvidei da selvageria das formigas. Observava as trilhas elaboradas, a movimentação ordenada, organizada, e o transporte de alimento para dentro do formigueiro. Desconfiava do tamanho e utilidade desse tal espaço, mas sempre alimentei a esperança de um dia, com minha imaginação, adentrar nas cavernículas desses animais especiais. Em um filme não muito recente, soube que uma formiga defendeu humanos miniaturizados de um escorpião e morreu inoculada pelo veneno. Uma pena (acho essa expressão talvez ambígua, mas, vá lá!).
Perdi as vezes em que me senti picado por um pensamento, o qual depois não saía facilmente da precariedade de meu raciocínio. As imagens articuladas (ou desarticuladas) de fuga ágil, como um exalar da liberdade. Formavam uma incontável quantidade... um conjunto de antenas e asas, constelação móvel, revolvida constantemente por uma espécie de deslocamento alado(ou seriam alífero?). Uma brisa bate a face. O corpo dos insetos evaporava então, resolvendo o efeito do pensamento e as tentaivas frustradas de entendê-lo enquanto experiência tão real.
Quando fotografei pela primeira vez o formigueiro, o caminho e a face de uma formiga, acordei para uma triste percepção. Aquelas imagens  traziam beleza e satisfação, pela posse e autoria. Não me contive e as mostrava para todos. Depois de algum tempo deixei de ver as formigas originais. Aceitei complacente e resignado infrutíferas certezas: a ânsia em libertá-las e a convicção de um amor para com o natural. Uma picada da formiga não doi tanto quanto a morte para o mesmo inseto. Uma ofensa pode ser tão dolorosa quanto a morte do agressor verbal?
Mas elas ainda estavam comigo... passei a enxergá-las a partir das pernas. Iniciei um passeio, em pensamento, pelo interior do formigueiro em vez de imaginá-lo um lugar grande a vazio, destinado apenas ao resguardo de mantimentos. Já não era um pensamento qualquer, mas um planejamento sensível e sensato, reclinável ao conhecimento delas e àvido pelos sustos saborosos que "uma certa e 'aquela!'" novidade proporciona. Reergo-me de cada pensamento sobre aquele formigueiro, de seu espetáculo vivo e citadino, com certa dificuldade, mas sempre disposto a imaginar coisas novas sobre a dita aglomeração. Seres que, normalmente, não ponho sob o jugo de minha planta do pé ou o solado dos incontáveis calçados, tão diversos quanto as pessoas que os usam.

Danilo Cerqueira

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