sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Citação de Admirável mundo novo, de Aldous Huxley


Os livros e o barulho intenso, as flores e os choques elétricos - na mente infantil esses pares já estavam ligados de forma comprometedora; ao cabo de duzentas repetições da mesma lição, ou de outra parecida, estariam casados indissoluvelmente. O que o homem uniu, a natureza é incapaz de separar.
- Elas crescerão com o que os psicólogos chamavam de ódio "instintivo" aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionados. Ficarão protegidas contra os livros e a botânica por toda a vida - o diretor voltou-se para as enfermeiras. - Podem leva-las.

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano. São Paulo: Globo, 2014. p. 40.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Citação de A revolta dos meninos, descoberto Freire


Andando na larga e longa avenida, ele espiava os prédios, as pessoas, as lojas, os bares, os carros, os ônibus, o céu. Nossa, como o mundo era grande! Mas ele estava sozinho naquele mundaréu sem fim. E se sentiu pequenino, tão pequenino como uma formiga, que era o menor bicho que ele conhecia. Logo se lembrou da melodia do velho cantor e tentou assobiar. Ela saiu, perfeita, inteira. Começou de novo... e ela saiu mais uma vez prefeita! A emoção que o invadiu foi forte demais. Tudo se agitava dentro dele e uma coisa muito intensa aconteceu. Ele passou a mão pelo rosto e o sentiu molhado. Eram lágrimas! Enfim, ele tinha conseguido chorar! Pela primeira vez na vida. E ficou assobiando sem parar, mas as lágrimas logo secaram. João Pão se sentia novo. Muito mais forte e pronto para outra.

FREIRE, Roberto. A revolta dos meninos: as aventuras de João Pão, um menor abandonado. São Paulo: Moderna, 1994. (Coleção Veredas). p. 85-86.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Citação de É preciso lutar!, de Marcia Kupstas

 

 
Existem duas cidades dentro de uma.
Existe aquela que desperta às 6 ou 7 horas da manhã, com os olhos cheios de sono e as pernas cheias de pressa. Aquela que se aperta nos ônibus e trens, que boceja no volante dos automóveis, que tem um horário para o serviço, tem uma aula ou uma prova, que vive dentro de milhares de pessoas pelas ruas, comprando e vendendo, marcando compromissos e virando multidão.
E existe a outra. Aquela que só começa a existir depois que a multidão se vai, depois que as luzes das casas e apartamentos começam a se apagar e o silêncio do sono vai percorrendo as ruas. Essa outra cidade tem ruas vazias de gente e pouco trabalho, poucos carros e um outro morador, aqueles que se apertam nos bares e nas boates, ali sim, locais onde a noite é alegre. Mas, na maior parte, a cidade noturna está silenciosa e escura.
 
KUPSTAS, Marcia. É preciso lutar! 10. ed. São Paulo: FTD, 1992. (Coleção canto jovem). p. 89-90.