quarta-feira, 27 de abril de 2011

As letras das músicas em diálogo com o conhecimento sobre a vida IX


 Um namoro a dois
Alain Tavares

Ô lala, ô lala ô lala ô lala
Ô lala, ô lala ô lala ô lala
Ô lala, ô lala ô lal
Ai que coisa boa é cafuné, eta arrepio que me dá
O som da maré o vento, a rede, o luar
O cheiro de mato, um papo bom
A sinfonia dos pássaros, um doce tom
A sinfonia dos pássaros, um doce tom
Um namoro a dois, um barco a velar, ô lala
Um namoro a dois, um barco a velar, ô lala
Ô lala ô lala ô lala, ô lala, ô lala, ô lala
Um calafrio me toma mas o meu amor é forte demais
Tem febre de desejo e vai e vem na rede eu adormeço, meço
Eu adormeço, ô lala, ô lala, ô lala
Ô lala, ô lala, ô lala, ô lala, ô lala, ô lala
Ô lala, ô lala, ô lala, ô lala, ô lala, ô laa



Essa letra é poesia pura. A descrição do momento, a caracterização do espaço, a associação do som às sensações e percepções do "eu-lírico", a harmonia instaurada entre letra e percussão são de uma poeticidade indescritível.

Um dos melhores álbuns de música produzidos na Bahia na década de 90 .
"Cada cabeça é um mundo" (1994)



segunda-feira, 18 de abril de 2011

As letras das músicas em diálogo com o conhecimento sobre a vida VIII

 

A Queda 

Composição : Lobão / Bernado Vilhena

Quantos sonhos em sonhos acordo aterrado
Aterrores noturnos minha alma se leva
É um insight soturno é o futuro passando
 Na velocidade terrível da queda
Na velocidade terrível da queda

Ante o colapso final a vertigem
próximo ao chão a penúltima descoberta
Que a lógica violenta das cores tinge
 A velocidade terrível da queda
A velocidade terrível da queda

Como cair do céu é tão simples
Queda que a tudo e a todos transtorna
Ah! as bombas, a chuva, os anjos e seus loucos
 O mundo todo na velocidade terrível da queda
O mundo todo na velocidade terrível da queda

Resvalando em abismos um pôr do sol furioso
Que a sensação de perda ao ver exagera
É o desespero vermelho de um apocalipse luminoso
 Ejaculado da velocidade terrível da queda
Ejaculado da velocidade terrível da queda

Diante do medo um sorriso aeróbico
Nas bochechas a câimbra de uma alegria incompleta
Nada como um sorriso burro e paranoico
 Para não perceber a velocidade terrível da queda
Para não perceber a velocidade terrível da queda

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Vejo essa música como um alerta e um desabafo. Uma atitude vernácula de dizer aos "quatro cantos" como estamos no limiar de uma situação de vazio e, para ser redundante, de queda(s). 
Nunca vi tantos "comentários!"  no youtube sobre uma música.
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Esta é a capa do CD e/ou LP da época
Nostalgia da Modernidade (1995)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Alegre saber" de uma tal ciência



Arranjamo-nos melhor com a má consciência do que com a má reputação

O pensador vê em seus próprios atos pesquisas e perguntas para obter esclarecimentos sobre alguma coisa: o sucesso ou o fracasso são para ele, antes de tudo, respostas

Há na generosidade o mesmo grau de egoísmo que na vingança, mas se trata de um egoísmo de outra qualidade

Hoje, a política já deixou de ser ofício de fidalgo: poderá ser que um dia ela venha a ser considerada tão vulgar que seja classificada, como toda literatura de partidos e jornais, sob a rubrica de "prostituição do espírito".

Nietzsche, A gaia ciência

domingo, 10 de abril de 2011

A ironia pode ser muito mais do que uma fria e desencantada metáfora que não se fez poesia?


Um dia, estive a declarar a independência do formigueiro!
É mesmo. Disse abruptamente que iria libertar todos aqueles animaiszinhos do fundo da terra. Nunca entendi o porquê de morarem  ali, recusando a luz solar, essa que proprorciona o milagre do crescimento dos vegatais, bronzeia a pele das pessoas e, dentre outras coisas, aquece uma superfície, móvel, para nossos passos.
Via-as com tamanha complacência que estive, por muito tempo, decidido a trazê-las à superfície. Ficava tão frustrado ao ver algumas espécies alíferas voando, insones, para uma realidade próxima: perda brutal e impiedosa de seus instrumentos de sonho e uma morte insondável, pois só as via vivas ou mortas. Talvez isso não seja imperdível para os apreciadores de filmes de terror e programas expositores das práticas cotidianas no mundo selvagem.
Sempre duvidei da selvageria das formigas. Observava as trilhas elaboradas, a movimentação ordenada, organizada, e o transporte de alimento para dentro do formigueiro. Desconfiava do tamanho e utilidade desse tal espaço, mas sempre alimentei a esperança de um dia, com minha imaginação, adentrar nas cavernículas desses animais especiais. Em um filme não muito recente, soube que uma formiga defendeu humanos miniaturizados de um escorpião e morreu inoculada pelo veneno. Uma pena (acho essa expressão talvez ambígua, mas, vá lá!).
Perdi as vezes em que me senti picado por um pensamento, o qual depois não saía facilmente da precariedade de meu raciocínio. As imagens articuladas (ou desarticuladas) de fuga ágil, como um exalar da liberdade. Formavam uma incontável quantidade... um conjunto de antenas e asas, constelação móvel, revolvida constantemente por uma espécie de deslocamento alado(ou seriam alífero?). Uma brisa bate a face. O corpo dos insetos evaporava então, resolvendo o efeito do pensamento e as tentaivas frustradas de entendê-lo enquanto experiência tão real.
Quando fotografei pela primeira vez o formigueiro, o caminho e a face de uma formiga, acordei para uma triste percepção. Aquelas imagens  traziam beleza e satisfação, pela posse e autoria. Não me contive e as mostrava para todos. Depois de algum tempo deixei de ver as formigas originais. Aceitei complacente e resignado infrutíferas certezas: a ânsia em libertá-las e a convicção de um amor para com o natural. Uma picada da formiga não doi tanto quanto a morte para o mesmo inseto. Uma ofensa pode ser tão dolorosa quanto a morte do agressor verbal?
Mas elas ainda estavam comigo... passei a enxergá-las a partir das pernas. Iniciei um passeio, em pensamento, pelo interior do formigueiro em vez de imaginá-lo um lugar grande a vazio, destinado apenas ao resguardo de mantimentos. Já não era um pensamento qualquer, mas um planejamento sensível e sensato, reclinável ao conhecimento delas e àvido pelos sustos saborosos que "uma certa e 'aquela!'" novidade proporciona. Reergo-me de cada pensamento sobre aquele formigueiro, de seu espetáculo vivo e citadino, com certa dificuldade, mas sempre disposto a imaginar coisas novas sobre a dita aglomeração. Seres que, normalmente, não ponho sob o jugo de minha planta do pé ou o solado dos incontáveis calçados, tão diversos quanto as pessoas que os usam.

Danilo Cerqueira