Essa música é muito boa. Diz muito sobre algumas coisas sobre as quais gosto de refletir. Acho que é, aliás, uma característica do trabalho da banda Heróis da Resistência (compositores) elaborar letras que aliam certa objetividade no trato com questões de cunho estético, filosófico, artístico, humanístico etc. com interpretação muito empolgante e crítica.
Essa música é sobre a criação de maneira geral - ou não.
Criação
Heróis da Resistência
Você já sabe o que eu sou
Será que sabe
Mas eu não sou quem já fui
Eu sou milhares
Aqui começa a história
De outro disfarce
Eu já não tenho memória
Só personagens
Criação – eu sei o preço que eu pago
Criação – prazer e dor
Criação – minha filha bastarda
Criação - Onde é que eu vou?
Eu vendo a alma e a imagem
Pra minha arte
Eu sou a soma de essência
E maquiagem
O tempo todo eu sou um deus
Ou impotente
Vivendo a vida inventada
A cada instante
Essa é a capa do LP Religio (1990) do qual a música faz parte.
Essa, prestigiadores de meu blog, é uma das músicas mais interessantes que já escutei e, claro, escuto. Tive poucas oportunidades (e lembranças) de escutá-la até o ano 2000, quando encontrei uma coletânea na casa de uma tia - Tia Bia.
Existe mesmo esse estado "Fora de ordem"?
Uma boa dose de realidade através do som não faz mal, não é. E sempre na linguagem da música, aqui em síntese com um texto fantástico de um dos caras mais competentes de nossa música - aos desavisados quanto à indissociação entre letra e música, porque Caetano também compõe muito.
Vapor Barato, um mero serviçal do narcotráfico,
Foi encontrado na ruína de uma escola em construção
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína
Tudo é menino e menina no olho da rua O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua
Nada continua
E o cano da pistola que as crianças mordem
Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito
mais bonita e
muito mais intensa do que um cartão postal
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial
Escuras coxas duras tuas duas de acrobata mulata,
Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis
Te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe
ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa é quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova, parece fogo, parece, parece paz
Parece paz
Pletora de alegria, um show de Jorge Benjor dentro de nós
É muito, é grande, é total
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial Meu canto esconde-se como um bando de ianomânis
na floresta
Na minha testa caem, vêm colar-se plumas de um velho cocar
Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano [estou pouco convicto quanto ao entendimento disso] Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon
Eu sei o que é bom Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial