terça-feira, 25 de janeiro de 2011

As letras das músicas em diálogo com o conhecimento sobre a vida

Olá prestigiadores de meu blog!
De  acordo com periodicidade ainda não acertada, começo a compartilhar algumas das letras de música que mais me impressionam em função de:

* Dizer algo a alguém;
* Por em evidência universos de nossas existências;
* Pulsão poética;
* Diálogo latente com a Literatura e outras artes, filosofia, ciência e o que se percebe ir além delas;


ELENCO AQUI

Dos Margaritas
Herbert Vianna e Bi Ribeiro



Fazer um desenho nas costas da mão
Despir a consciência das dores morais
Jogar uma vaca do décimo andar
Viajar sob a lua que varre os sertões

Uma ostra chilena, um beijo em Paris
Se cortasse o cabelo e mudasse o nariz
Se Vital escrevesse a constituição
Se eu nunca quisesse quem nunca me quis

Ser dois e ser dez e ainda ser um
Se a vingança apagasse a dor que eu senti
Ser seco, ser reto, isento à moral
Se eu nunca lembrasse o estrago que eu fiz

Tudo isso me faria feliz
Absurdos me fariam feliz
Pero nada me hará tan feliz
Como dos margaritas

fragmentos de um evangelho apócrifo

 

3. Desventurado o pobre de espírito, porque sob a terra será o que agora é na terra.

4. Desventurado aquele que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto.
5. Felizes os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.
6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.
7. Feliz aquele que não insiste em ter razão, porque ninguém até ou todos a têm.
8. Feliz aquele que perdoa aos outros e aquele que perdoa a si mesmo.
9. Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem com a discórdia.
10. Bem-aventurados os que não tem fome de justiça, porque sabem que a nossa sorte, adversa e piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.
11. Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.
12. Bem-aventurados os de coração puro, porque vêem de Deus.
13. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça do que seu destino humano.
14. Ninguém é o sal da terra, ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, ainda que nenhum homem a veja. Deus a verá.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.
17. Aquele que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele acredita ser justa, não tem culpa.
18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.
19. Não odeies teu inimigo, porque, se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
20. Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma, e é árduo, ou impossível, definir a fronteira que os divide...
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que no final de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
25. Não jure, porque todo juramento é uma ênfase.
26. Resiste ao mal, mas sem assombro e sem ira. A quem te ferir na face direita, sempre que não te mova o temor.
27. Não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.
29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de satisfazer tua vaidade.
30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é o pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e, se não for assim, não é teu o erro.
32. Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida.
33. Dá o santo aos cães, atira tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar.
34. Procura pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar...
39. A porta é a que escolhe, não o homem.
40. Não julgues a árvore por seus frutos nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia.
47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.
48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo similar a derrota ou as palmas.
49. Felizes os que guardam na memória palavras do Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes

Jorge Luis Borges
Trad. Josely Vianna Baptista

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sobre algum tempo das letras


O efeito mais notável da divisão do trabalho é a decadência da literatura.

Na Idade Média e na Antiguidade o letrado, espécie de doutor enciclopédico, sucessor do trovador e do poeta, que sabia tudo, podia tudo. A literatura, sobranceira, regia a sociedade; os reis procuravam o favor dos escritores ou se vingavam de seu desprezo queimando-os, a eles e a seus livros. Mas ainda era uma forma de reconhecer a soberania literária.

Hoje, se é industrial, advogado, médico, banqueiro, comerciante, professor, engenheiro, bibliotecário etc., mas não se é mais homem de letras. Ou melhor, alguém que se tenha elevado a um grau pouco mais notável em sua profissão é por isso mesmo e necessariamente letrado: a literatura, como o bacharelado, se tornou parte elementar de toda profissão. O homem de letras, reduzido a sua expressão pura, é o escritor público, um tipo de caixeiro viajante de frases pago por todos e cuja variedade mais conhecida é o jornalista.

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O interesse pelo romance não se sustenta senão quando se aproxima da realidade; a história se reduz a uma exegese antropológica; por toda parte, enfim, a arte de falar bem parece como a auxiliar subalterna da ideia, do fato. O culto da palavra, muito lento para os espíritos impacientes, é negligenciado e seus artifícios perdem cada dia mais sua sedução.

Numa sociedade nascente, o progresso das letras precede necessariamente o progresso filosófico e industrial e por muito tempo serve a ambos de expressão. Mas chega o dia em que o pensamento transborda a língua e então, por conseguinte, a preeminência conservada pela literatura se torna pura para a sociedade um sintoma seguro de decadência.

A linguagem é, com efeito, para cada povo a coleção de suas ideias nativas, a enciclopédia que lhe revela primeiramente a Previdência; é o campo que sua razão deve cultivar, antes de atacar diretamente a natureza pela observação e pela experiência. Ora, desde que uma nação, após ter esgotado a ciência contida em seu vocabulário, em lugar de prosseguir sua instrução por uma filosofia superior, se envolve em seu manto poético e se põe a brincar com seus períodos e hemistíquios, pode-se ousadamente definir que essa propriedade está perdida.

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Que não se tenha, pois, ilusões: a partir do momento em que o espírito, primeiramente todo ele contido no verbo, passa para a experiência e o trabalho, o homem de letras propriamente dito nada mais é que a personificação raquítica da menor de nossas faculdades; e a literatura, refugo da indústria inteligente, só encontra consumo entre os ociosos que diverte e os proletários que fascina, os malabaristas que assediam o poder e os charlatães que nela se defendem, os hierofantes do direito divino que embocam a trombeta do Sinai e os fanáticos da soberania do povo, cujos raros órgãos, reduzidos a ensaiar a sua facúndia tribunícia sobre os túmulos, esperando que faça chover dardos do alto e que só sabem dar ao público paródias de Graco e de Demóstenes.

PROUDHON, Pierre-Joseph. I - Efeitos antagônicos do princípio da divisão. Cap. III - Evoluções econômicas: Primeira época – A divisão do trabalho. In: Filosofia da Miséria. Trad. Antônio Geraldo da Silva. Ed. Escala. São Paulo – SP, 2007.



domingo, 9 de janeiro de 2011

Esse 2011

Foto: Mariano Aido

O que "espero" para 2011...
"Espero" maior caminhada nas veredas do saber.
Não apenas no conhecimento formal, das instituições construidas em alvenaria, madeira ou outro composto físico que visa certo tolhimento visual.
Espero crescer como o amendoim.
Ele sementeia no interior da terra e não cresce, na mesma proporção, ao sopro do ar e daquele ventre tão fértil.
"Espero" não planejar demais, porque as visões não são sempre tão concretas quanto o que vivemos no intante das sensações.
Que esse tempo seja para conhecer mais sobre mim e mais sobre você conhecendo mais sobre mim numa relação com você.
Acredito mesmo nas circunvoluções, retornos, contornos, ou seja, compreensões (vários sentidos).
Um instante de "crescimento" não é imediato.
Esvaziado de toda a forma de soberba, está tão enlaçado à ombridade e respeito, espalhados pelo contexto de nossa existência, precisa ser estímulo em várias de nossas ações para enfim ser percebido(descoberto) como um (novo?) fragmento de conhecimento, como num intante mágico - frações de segundo.
O que acontecerá em 2011?
Dias serão vividos ao sabor de grandes conquistas, como o soerguimento da estrela da manhã e estes primeiros movimentos conscientes de inspiração e expiração.